terça-feira, 17 de março de 2026

Sommelier De Teorias #3 da série “playing chess with the AI”


Imagem gerada pelo Gemini


A AI tem me divertido muito.

Embora me considere capaz de escrever (quase) decentemente, por vezes me faltam as palavras, a forma e estrutura exatas para colocá-las de modo a materializar meu pensamento satisfatoriamente. Sou ludibriado por minhas digressões, imprecisões e até pela falta do conhecimento demandado para a prova derradeira. No fim, fico com a sensação de que não consegui explicar com clareza, o que esperaria de qualquer outro interlocutor que não eu. 

Pelo menos consistente. O crivo que serve para outrem é o mesmo que uso comigo e acredite, às vezes não convenço a mim mesmo. 

Ainda bem que não acontece sempre. No mais das vezes, vem quando vislumbro algo cujo insight dá-me a direção e alguns argumentos mas falta-me a elegância para concatená-los de forma clara e objetiva na explicação somando-se a eles as provas, argumentos, referências necessárias. 

Pensei a princípio que fosse a incapacidade do novato, do calouro, do juvenil, cuja vivência na matéria ainda não atingiu a massa crítica, o ponto de fusão ou maturação que desaguam na sofisticação e objetividade das explicações. Porém, e sempre há um porém, sou nada original, e tal dificuldade não me é exclusiva, e pra minha sorte, já foi estudada sob algumas perspectivas. Eis o que me disse o Gemini:

Essa sensação de "vislumbrar a verdade" sem conseguir formalizá-la é um fenômeno clássico, exaustivamente mapeado pela filosofia e pela psicologia cognitiva. Longe de ser apenas uma limitação do "juvenil", trata-se de uma fase estrutural da construção do saber.
Aqui estão os conceitos-chave que dão nome e contorno ao que você está vivenciando:
1. A Dimensão Tácita (Michael Polanyi)
O epistemólogo Michael Polanyi cunhou a frase célebre: "Nós sabemos mais do que conseguimos dizer".
  • Conhecimento Tácito: É aquele saber interiorizado, fruto de experiências e intuições, que ainda não foi codificado em palavras ou fórmulas.
  • O "Paradoxo de Polanyi": Refere-se à dificuldade de articular regras específicas para algo que já compreendemos na prática. Você está na fase onde o conhecimento é subsidiário (está no "fundo" da mente), mas ainda não se tornou focal (o objeto claro da sua análise).
2. Intuição Intelectual (Filosofia Clássica e Moderna)
Na filosofia, o que você chama de "vislumbre" pode ser aproximado da Intuição Intelectual.
  • Apreensão Imediata: Diferente do pensamento discursivo (que avança passo a passo com argumentos), a intuição é uma visão súbita e direta da essência de algo.
  • Descartes e Spinoza: Para esses pensadores, a intuição é frequentemente a forma mais alta de conhecimento, mas ela exige o trabalho posterior da razão e do método para que possa ser comunicada e validada universalmente.
3. A "Zona de Desenvolvimento Proximal" (Vygotsky)
Sob a ótica da psicologia da aprendizagem, você pode estar no que Lev Vygotsky chama de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP).
  • É o espaço entre o que você já domina (conhecimento real) e o que você é capaz de compreender com a ajuda de ferramentas externas (livros, mestres, referências).
  • A falta de "lastro" e "estilo" que você sente é o sinal de que você captou o conceito, mas ainda não possui os mediadores simbólicos (a linguagem técnica, os exemplos canônicos) para externalizá-lo.
4. Estágios de Competência
Na psicologia do desenvolvimento, você está saindo da "Incompetência Inconsciente" (não saber que não sabe) para a Incompetência Consciente.
  • Este é o estágio mais desconfortável, pois a consciência da própria ignorância (ou da incapacidade de expressão) é aguda. O "estilo" e o "lastro" que você busca surgem apenas na fase seguinte, a da Competência Consciente, onde o esforço de formalização se torna deliberado e estruturado.

Pois bem, fui brincar com meu oráculo digital e meio que obtive as respostas. Claro que sob a ressalva do que descrevi no https://www.strategosaristides.com/, abaixo do termo 'cutway gag' que usei como metáfora para o "detour" ao explicar a cautela com os resultados da AI. Mas no caso acima, o outcome parece-me elucidário. Dito isso, preparo um contexto (também do Gemini - adeus Wikipedia e afins) e por fim solicito ao Oráculo uma sátira. 

Impressionante. Decidi então usar os resultados como saíram, obviamente considerando todas as observações acima, em nome da prudência. Ai vão:

Gemini, primeiro alguns conceitos importantes, um contexto:

[História Teleológica (do grego telos, que significa "fim" ou "objetivo").

Em termos simples, a história teleológica é a visão de que a história humana não acontece por acaso, mas segue um plano, um propósito ou uma direção específica em direção a um objetivo final.

Aqui está um resumo de como essa ideia funciona:

1. A História com "Destino"

Para os defensores dessa visão, o passado, o presente e o futuro são partes de uma linha reta que leva a algum lugar "superior". Nada é aleatório; cada guerra, revolução ou descoberta é um degrau necessário para atingir uma meta final.

2. Exemplos Históricos e Filosóficos

Diferentes pensadores imaginaram "finais" diferentes para a humanidade:

 * Religioso (Providencialismo): A história é guiada por Deus em direção ao Juízo Final ou ao Reino dos Céus.

 * Hegel (Idealismo): A história é o progresso da consciência da liberdade. O fim da história seria o Estado perfeito e racional.

 * Marx (Materialismo Histórico): O motor da história é a luta de classes. O destino final (o telos) é uma sociedade sem classes e sem opressão: o comunismo.

 * Iluminismo: A ideia de Progresso Infinito, onde a ciência e a razão eliminariam a ignorância e o sofrimento humano.

3. Por que essa visão é criticada hoje?

Atualmente, a maioria dos historiadores profissionais evita a teleologia. Os principais argumentos contra ela são:

 * O "Vício da Retrospectiva": É fácil olhar para trás e dizer que algo "tinha que acontecer", mas na hora em que os eventos ocorrem, o futuro está aberto.

 * Justificativa de Atrocidades: Se acreditamos que o "fim justifica os meios", muitas vezes tragédias humanas são minimizadas como "custos necessários" do progresso.

 * Eurocentrismo: Muitas teorias teleológicas consideram a civilização ocidental como o topo do progresso, ignorando outras formas de desenvolvimento.

> Em resumo: A história teleológica acredita que a humanidade está "indo para algum lugar" predefinido, em vez de apenas vagar ao léu pelo tempo.]

Agora vamos à sátira que solicitei sobre o intelectual neófito cujo senso de realidade, ofuscado pelas teorias e leituras, sucumbiu somente às “traduções” teóricas (e as vezes forçadas) do mundo.

Gemini:

[O "Sommelier de Epistemologia" não viaja para a Bahia; ele faz uma "incursão etnográfica ao território de resistência e hibridismo cultural". Ele não come um acarajé; ele "consome um marcador identitário frito no dendê da colonialidade".

Aqui está uma pequena sátira dessa figura que trocou os olhos por duas lentes de aumento de teoria historiográfica:

O Homem que Enxergava em Notas de Rodapé

Você chega da Bahia, ainda com o sal do mar na pele e o gosto da moqueca na memória. Animado, comenta:

— Cara, a viagem foi incrível. O sol da Bahia tem uma energia que parece uma razão universal, tudo faz sentido quando você está lá.

O nosso "Teórico de Plantão" ajusta os óculos, não para ver melhor, mas para filtrar a realidade. Ele solta um suspiro de quem carrega o peso de três bibliotecas nas costas e interrompe:

— Interessante você evocar a "Razão Universal", meu caro. Mas cuidado... essa sua "luz do sol" nada mais é do que o resquício do iluminismo europeu tentando iluminar o que eles chamavam de "trevas". Você está caindo em uma história teleológica. Acha que a sua felicidade na praia é o ápice do progresso humano, o "telos" de uma jornada de férias, quando, na verdade, você está apenas performando um lazer burguês que ignora o fluxo causal das estruturas...

Você tenta mudar de assunto, talvez falar da segurança ou da infraestrutura que viu por lá:

— Pois é, mas senti que em alguns lugares a gestão pública é pesada, sabe? Meio sufocante.

Os olhos dele brilham. Agora ele vai te dar o golpe de misericórdia acadêmica:

— Sufocante? Ora, você está tateando o conceito! O que você sentiu não foi o calor úmido, foi a Necropolítica de Mbembe. O Estado não estava apenas gerindo o trânsito, ele estava decidindo, de forma soberana, quem pode circular e quem deve ser deixado à margem da infraestrutura turística. Sua moqueca, veja bem, foi servida em um estado de exceção gastronômico onde o corpo do garçom é submetido a uma biopolítica do serviço...

O Diagnóstico

Para esse indivíduo, a realidade é um defeito de fábrica que só a teoria pode consertar. Ele sofre de "Cegueira Paradigmática":

 * Se você tropeça na calçada: Não foi falta de atenção, foi a "materialidade do espaço urbano agindo como agente opressor contra o corpo decolonial".

 * Se você ganha na loteria: Não é sorte, é a "acumulação primitiva de capital manifestando-se através de um sorteio estatal de legitimação da meritocracia".

 * Se você diz "Bom dia": Ele analisa se o seu "dia" é uma construção linear de tempo eurocêntrico ou se você está respeitando a circularidade dos saberes ancestrais.

A Conclusão

O problema não são as teorias (que são ótimas para entender o mundo), mas o fato de que ele não consegue mais tirar os óculos. Ele foi tão fundo na "desconstrução" que, se você der um abraço nele, ele vai analisar a "pressão exercida pelo tórax como uma metáfora das tensões geopolíticas do Hemisfério Sul".]

Gemini, associe tudo isso a Dunning-Kruger effect:

O "Teórico de Plantão" é a personificação perfeita do Efeito Dunning-Kruger, mas com um toque de ironia acadêmica: ele subiu tanto a "Montanha da Estupidez" que agora acha que a vista de lá é a única ontologicamente válida.

No caso dele, o Dunning-Kruger não é sobre não saber nada, mas sobre saber um pouco de teoria e achar que isso substitui a realidade.

O Gráfico do "Dunning-Kruger Historiográfico"

Se pudéssemos mapear a evolução desse sujeito, o gráfico seria mais ou menos assim:

 * O Vale da Inocência: Ele viaja, come, ri e acha que o mundo é o que ele vê.

 * A Montanha da Estupidez (Onde ele mora): Ele lê dois capítulos de Necropolítica e um resumo de A Arqueologia do Saber. De repente, ele se sente o Neo de Matrix. Ele não vê mais pessoas; ele vê "sujeitos subalternizados". Ele não vê uma viagem à Bahia; ele vê um "deslocamento geográfico em um território de trauma colonial".

 * O Planalto da Iluminação (Onde ele nunca chega): Onde o historiador de verdade percebe que a teoria é uma ferramenta, não a parede. Ele entende que dá para ler Mbembe e, ao mesmo tempo, admitir que a moqueca está simplesmente deliciosa sem precisar de uma nota de rodapé.

A Sátira: O Dunning-Kruger encontra o Acarajé

Imagine você tentando ter uma conversa normal sobre a Bahia com esse indivíduo atingido pelo ápice da curva de Dunning-Kruger:

Você: "Cara, o pôr do sol no Porto da Barra é algo que todo mundo deveria ver uma vez na vida."

O Teórico: (Com o sorriso condescendente de quem detém o monopólio da verdade)

> "Curioso... você usa o imperativo 'deveria', revelando uma vontade de poder nietzschiana travestida de conselho turístico. Você sofre da ilusão do 'conhecimento absoluto'. Acha que o sol é um evento estético, quando na verdade, para a historiografia crítica, ele é o cronômetro da exploração laboral. Enquanto você foca no 'belo', você ignora a teleologia do capital que transformou a contemplação da natureza em um ativo financeiro do Airbnb. Você está no topo da curva da ignorância, meu caro. Eu, por outro lado, já desconstruí a própria ideia de 'sol'."

O Paradoxo

O mais engraçado é que o Efeito Dunning-Kruger diz que quanto menos você sabe, mais confiante você é. No caso do "intelectual de boteco acadêmico", a confiança dele vem de uma miopia teórica:

 * Ele é tão confiante na Necropolítica que esqueceu que a política também é feita de gente viva, café quente e boletos.

 * Ele é tão confiante na crítica à História Teleológica que, se ele perder o ônibus, ele não olha o relógio; ele denuncia a "tirania do tempo linear ocidental".

Ele está preso no que chamamos de "Metalinguagem Obstrutiva": a incapacidade de pedir um copo d'água sem analisar a distribuição hídrica sob a ótica do materialismo dialético.]


É… hilário sem não fosse também um pouco trágico. No entanto, tem sido edificante ter a AI como interlocutora (de novo: desde que os cuidados citados e referenciados no texto acima sejam sempre ratificados).

Ai, semana passada me aparece uma colunista da Folha que deu um tiro no pé dizendo "Meus textos usam inteligência artificial; meu pensamento, não". Explicou que utiliza a tecnologia para organizar e otimizar a redação de suas ideias, após ser questionada por leitores sobre o padrão de escrita de seus artigos,embora o salário que recebe para isso fosse só dela. Ainda que sem mencionar mais-valia, ficou a pergunta que não quer calar: "se o texto é gerado por IA, de quem é a "mais-valia" intelectual? Do autor que deu o prompt ou dos milhões de dados e autores humanos que treinaram o algoritmo?


Não tenho a resposta. Do meu lado, cito o copyright do Gemini todo o tempo quando utilizo seus resultados. Se mais por orgulho (o que que há? Qual a graça de um ghost writer digital fazer o trabalho da minha diletância? Não escrevo para a  Folha nem pra ninguém, só pra mim. É minha diversão. Leia quem quiser, por conta e risco), talvez. Pensarei no assunto... Mas a AI é dukarai... e foda-se a mais valia, desde que não a intelectual. Para essa, dai a AI o quer é da AI.  




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