quarta-feira, 29 de maio de 2013

Calor e sombras

Hugo Lanza mal se lembrava de quem fora, embora aqui e ali jogados em prateleiras da estante do quarto um ou outro livro ainda trouxesse-lhe lampejos, espasmos dolorosos do passado. Lembrava-se de Kafka e da transformação de Gregor Samsa numa barata gigante, mas apenas para perder-se logo depois por entre uma multidão de baratas bípedes, de ternos, gravatas, no escritório, nos consultórios, ruas, ônibus, de jeans, vestidos, suéteres. Duvidava que resistiriam a uma bomba nuclear mas sabia com certeza que sobreviveriam sem cabeça por pelo menos um mês, pois lera um dia que um gânglio nervoso em seu tórax passaria a coordenar os movimentos permitindo que fujissem das ameaças, e disso lembrava-se bem. Como em seu corpo haveria um revestimento de células sensíveis à luz, poderiam localizar e correr para as sombras a fim de se proteger.
Um cérebro no estômago... as sombras... faziam um estranho sentido. De alguma forma, aquilo explicava sua melancolia crônica trazendo-lhe certa paz, resignada.

A ausência de sua imagem refletida nos espelhos ou a imagem de outrem no lugar não o incomodavam mais. Não tinha mais ideia de como havia se parecido, nem mesmo uma memória residual nesse caso. Um vampiro, ou talvez a bala no crânio como em Winstom e o grande irmão, sua distopia.
Andava sem pensamento próprio na maioria do tempo, apenas atormentado aqui e ali por epilépticos takes como cacos de memórias que desconhecia, como se suas não fossem. Ainda ouvia do fundo da cabeça uma chamada estranha a susurrar-lhe frases, "All's well that ends Wells"[1], nomes... Pavlov, Watson.

Embora vivesse ao sul do equador, nos trópicos, e de ter o sol como parceiro e autor de temperaturas médias perto dos 26 graus, sua perspectiva doente turvava a beleza da cidade no lúgubre e úmido universo russo de Fiódor, Franz, os únicos autores cujos livros ainda faiscavam suas remotas e esporádicas lembranças.
Dai estar sempre de blusa, independente da temperatura...

Lá fora o mundo sempre o mesmo, como se dias, meses e até anos não medissem mudanças, apenas uma contagem insossa e desnecessária. O suor, a pele oleosa. As sombras... seu cérebro talvez no estômago, como Gregor Samsa, só que bípede, indo ao trabalho todos os dias, autômato, como todos.
"Como um cão" [2].
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Figura: Gregor Samsa | Calibre Cultural
calibrecultural.wordpress.com 
[1] H. G. Wells, "Dr. Wells", Escritor britânico e socialista utópico, cujo livro Men Like Gods foi um incentivo para Admirável Mundo Novo. Huxley escreveu em suas cartas: "All's well that ends Wells" (claro jogo de palavras utilizando o conhecido provérbio "Tudo bem quando termina bem" utilizado também por Shakespeare como título de uma de suas peças) para criticar Wells por seus pressupostos antropológicos ao qual Huxley achava irrealista. Fonte: Wikipédia
[2] O Processo - Franz Kafka, 1925

quinta-feira, 25 de abril de 2013

25 de Abril

25 de Abril foi um marco. Naquele dia meu caminho foi redesenhado, e seja lá o que tinha em mente até então, simplesmente deixou de ser minha prioridade. Tudo o que veio depois foi inevitavelmente a consequência daquela manhã. E se hoje saio de casa para o trabalho é porque tenho uma razão para voltar. 25 de Abril de 1990 me deu um motivo indestrutível para seguir. Tudo por causa daquele dia, e tenho agora mais dois dias inesquecíveis para lembrar... e ainda descobri a mulher da minha vida. Nada mal para um idiota que nem planejara bem o que queria da vida.
Antes tarde do que nunca...

Sou um servo consciente e feliz dos meus. Na verdade, como meu velho e minha mãe, acho mesmo que só faço sentido assim.
Para muitos parecerá pequeno, afinal, nunca me tornarei um bilionário, muito menos um popstar, menos ainda um Nobel da Física. Mas sorvo diariamente prazeres que me fazem sentir um gigante: discuti com minha filha uma ideia sua para a próxima tirinha do blog; fui buscar a outra no shopping e ouvi dela planos para o primeiro dia do resto de sua vida; passei todo o fim de semana em quadras de tênis assistindo meu filho em mais um torneio.
A mim basta alcançar o outro lado do mistério sem escrever o Capítulo das Negativas, como Cubas. Não esquadrinharei memórias póstumas, 25 de Abril já me fez imortal!
Naquele dia nasci de novo, e de novo todos dias diante de meus filhos.
25 de Abril me trouxe um começo, um nome.
Cinara...

sábado, 30 de março de 2013

Contenda II

Thiago Amud e Guinga já disseram em verso e música que contenda é a pior das brigas, porque aquela de você contra você mesmo.
Concordo.

Após ler a biografia do Agassi notei quão corriqueiro num esporte individual isso é(... mestre yoda).
E eu que já imaginei o tênis como o paraíso da autonomia onde não precisasse prestar contas das falhas, erros a ninguém. Nunca lidei muito bem com cobranças de gente cuja autoridade e direito não alcançavam meu sapato, btw.
Mas é fato que a cobrança vinda de você mesmo pode ser ainda mais devastadora. Pior, dessa simplesmente não há fuga.
Tommy Haas confirmou isso em entrevista recente quando justificava a um repórter a devastação de uma derrota. Porém, perto de completar 35 anos e jogando um tênis impecável, disse não saber ainda viver sem essa pressão. É um vício.
Meu filho, aos treze, vivencia hoje a mesma contenda, a dúvida.
Não posso fazer muito, o que é ainda mais enlouquecedor. Ele terá de andar sozinho o caminho, como sozinho também estará em quadra lidando com os altos e baixos do jogo e da briga interna. O "tênis é um turbilhão".
Mas lograr-se sobre si mesmo fazem de ti um campeão, e se não consegui eu mesmo vencer essa "sombra rival que me acompanha", esse "rosto escondido no espelho", meu filho rodopia, beija o chão, camba pra cá, camba pra lá, luta. E eu grito VIVA!
Seu mestre rei foi ZéMota, camará!!!

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Imagem: http://www.marcelomoutinho.com.br/blog/Diversidade_sexual_imagem.JPG

Contenda
(Guinga e Thiago Amud)

Sou a dobra de mim sobre mim mesmo
Nesse afã de ganhar de quem me ganha
Tento andar no meu passo e vou a esmo
Tento pegar meu pulso e ele me apanha
Eita, sombra rival que me acompanha
Artimanha de enconsto malfazejo

Rodopiei, beijei o chão, cambei pra cá
Meu mestre rei foi Salomão, camará!

Dei um talho em meu próprio sentimento
Pra que o mundo fulgure na clareira
Que esse nervo me aviva o sofrimento
Que esse olho é motivo de cegueira
Ê, presença difusa, desordeira
Giro de furacão sem epicentro

Desafiei, puxei facão, ponguei pra lá
Vazei no peito esse intrujão, camará!

E vem pernada aí
Vem não, foi desvario
E vem navalha aí
Vem não, foi calafrio
A roda vai abrir
Quando eu cair
No vazio

Meu sangue arredio, arrevesado
Arranco e derramo em oferenda
Mas não ponho fim nessa contenda
Com meu coração esconjurado

Camará, Camará, Camará...

Sei de um rosto escondido no espelho
Bem depois do cristal iridescente
Entro no meu juízo e destrambelho
Entro no meu caminho e passo rente
Eita, angústia que vai minando a gente
Capoeira contra Pedro-Botelho

Serpentei, botei pressão, varei o ar
Parei no meio do desvão, camará!

E vem pernada aí
Vem não, foi desvario
E vem navalha aí
Vem não, foi calafrio
A roda vai abrir
Quando eu cair
No vazio

Camará, Camará, Camará...

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Déjà-vu

Sempre ouvi falar da "crise da meia idade" com a mesma descrença com que um amigo até hoje "truca" a ida do homem à lua. Usar a "crise" para justificar erros estava mais para baitolagem que para psicologia séria (se é que há algo de sério na psicologia), embora Elliot Jaques já tivesse ganho a "imortalidade" ao cunhar o termo em 1965, tendo ainda se transformado numa espécie de guru corporativo ao introduzir conceitos como o 'horizonte temporal do discernimento' (ou TSD - Time Span of Discretion), 'strato', o 'felt-pair pay' e outros em um sem número de trabalhos e livros.
Mas eis-me aqui, aos 46, sentindo algo que se parece um pouco com aquilo. Pra piorar, depois de surfar pelo Google e ler chunks do Dr. Jaques, descubro também que sua ciência corporativa é um dos rotores da minha descrença. Tudo parece miseravelmente correlacionado, e não por coincidência.
Às vezes considero mesmo que algo me antecipa um futuro, assim como uma bola de cristal intuitiva. Porém, cego, não decifro os sinais a tempo, só concluindo a posteriori quando juntar os pontos nada mais é que a derradeira constatação de que deveria ter levado mais a sério meus déjà-vus. Ou talvez seja como Ruth Rocha escreveu em 'O Menino que Aprendeu a Ver', nada mais que rever o mundo velho sob a perspectiva nova aberta por um insight ou novo aprendizado. É como deparar-se com a placa PARE tarde demais, após já ter passado o cruzamento. Frustrante. 

(...)

É carnaval. Na TV me esforço para entender a explicação surreal do apresentador - talvez lendo o prospecto da Escola acerca da ala ora filmada - ao mesmo tempo em que busco na imagem a correlação que nunca vem. Mulheres seminuas pululam sob a análise dos especialistas comentaristas e me perco ainda mais. A única inferência que me ocorre é por que algumas Escolas têm aqueles nomes,  'Acadêmicos do..."
É academicismo demais nos comentários, enquanto signficado e roupa de menos na avenida.
Mas como o João da Ruth Rocha, talvez apenas precise aprender a ver... o que também me ajudaria sobremaneira a entender art pop, música contemporânea e poesia concreta.

(...)

O ócio no carnaval e a "crise" me compeliram a achar o Dr. Jaques.
Me lembrei também da Ruth Rocha e de quando comprei o CD de seu livro e dei de presente para minha filha de 5 anos. Hoje ela tem 22.
Encerro querendo ser o Mainardi, exilado voluntário em seu apartamento existencial em Veneza fugindo de ser uma pantomima de si mesmo ao abandonar a pantomima oficial aqui desse nosso sítio. Ou talvez o Francis, como o fantasma do Metropolitan Museum em Nova York. Mas não tive ainda a mesma sorte, ou azar. E embora o patrulhamento me execre por isso, não dou a mínima para os facistinhas.

A disseminação de conceitos forjados ideologicamente dispensou sua explicação e análise transformando-os em verdades indiscutíveis, axiomas, embora seu fim seja apenas despertar na platéia, por força do automatismo decorrente do uso repetitivo e pseudo avalizado, as emoções e reações desejadas.

Em crise da meia idade sim... Deprimido?, um pouco.
Burro ainda não!
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Referências:

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Notas de miragem

Tentei iniciar o ano escrevendo algo diferente. Não consegui.
Tempo velho de um ano novo.
(...)
Tenho sonhado frequentemente com meu velho. Aqui e ali ele ainda passa por mim e flerta, me diz coisas.
Estranho minha mãe não ter sonhado com ele ainda.
Pra mim, de todo modo, é o velho ano que não acabou, que talvez nunca acabe.
(...)
Vim do interior onde encontrei velhos amigos dele. São meus amigos agora, como também seus filhos, e até os filhos de seus filhos. Talvez esteja me transformando, por vezes acho mesmo que sou ele. E gosto, até.
(...)
Do alto de um prédio vi a tempestade emboscar a cidade. Nuvens subitamente cobriram o azul fazendo do cinza a âncora do mundo.
O muro d'água cegou-me por minutos enquanto o rebenque do granizo açoitando o prédio, os carros me fazia imaginar o fim de tudo. Fôramos reduzidos a prédios, carros?
Busquei explicação então numa viagem de trem. Sou mineiro, after all.
Fui além... adentrei a fazenda de um pai segundo e descobri um caminho novo: entre cães, galinhas, abóboras, o maxixe da horta, a mata, o gado, o lobo guará errante, a bebida intoxicante depois do jantar, estava a vida ali dispersa à minha frente.
(...)
Continuar é preciso...
Lembrei meu avô e repeti: "quem vier por último que feche a porteira".


domingo, 16 de dezembro de 2012

Privatização não... Privada!

A "grande mídia" não inventa notícias, só noticia, fatos, muitos deles, felizmente, já provados e comprovados até pelo STF. Por isso incomoda tanto.

Vide ai dois recentíssimos exemplos da competência estatal na gestão de ícones nacionais que nunca devolvem o que nos tomam.




A rede suja na Internet com seus sabujos a soldo evidentemente já iniciaram a defesa exatamente pela estratégia que depuraram melhor ao longo desses anos: o ataque, a mentira. Tentam dar alguma credibilidade através de pseudo-análises de seus intelequituais. Só um pouco mais da estratégia fabiana deslocando o assunto de seu cerne, negando a lógica, comparando alhos com bugalhos e fazendo silogismos cujas conclusões são definidas antes da inferência. Engenharia social com o fim sujo de manipular a opinião. Picaretagem intelectual deslavada. 

Atenha-se aos fatos, pesquise, diga que são falsas as notícias (se for capaz).

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Sobre homens bonitos, loiras, baixinhos e varapaus

Com a devida vênia, compartilho aqui a tese do primo Carlos Mota, nada menos que Coordenador de Recursos Humanos no INSS e Procurador Federal, além de Juiz Maior da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Minas Novas e, ipso facto, um baita escritor.


Sobre homens bonitos, loiras, baixinhos e varapaus

Tese de Carlos Mota Coelho

Na maioria das vezes, o senso comum falha em suas constatações acerca de determinado fenômeno, gerando mitos, crendices, seitas, facções, religiões enfim. Noutras, a ciência acaba por confirmar aquilo que por milhares de anos – e em populações, as mais diversas – é tido como verdade absoluta e inconteste.

Um desses mitos, por exemplo, é o de que toda loira é burra. Não obstante o número de exemplares, falsos ou verdadeiros, o universo blond apresenta estatisticamente o mesmo número de beócias verificado entre as morenas. O que, em verdade, pode ser inferido é o natural espalhafato do amarelo, quando comparado aos tons da cor preta. Ademais, não é nada científico atribuir-se, por exemplo, burrice genética a um cabelo cuja cor se alterou temporariamente, graças a uma aplicação de corantes artificiais ou descolorizantes do tipo parafina.

É de ressaltar, ainda, a falta de rigor epistemológico na negativa desse atributo aos machos portadores de pêlos loiros. Exceção a esse axioma é, com certeza, a subespécie dos surfistas, pois não há burrice maior do que insistir em passar a vida tentando se equilibrar sobre ondas, o que desmoraliza por completo o cérebro humano. Ipso facto, pode-se afirmar, sem receio de qualquer tipo de censura, que todo surfista, louro ou de qualquer outro matiz, é burro, exceto os do Lago Paranoá, como é o caso de meu genro, exímio compositor e cantor!

Mas, saindo dos exemplos, e partindo para o escopo da tese aqui desenvolvida, o mundo científico terá finalmente a oportunidade de submeter a teste a relação entre o Sistema Digestivo Humano e a Aparência Humana – num espectro que vai da feiura, por exemplo, deste cientista que vos fala, à beleza de um Tom Cruise.

Se não me engano, Diógenes foi o primeiro a vislumbrar uma relação necessária entre os belíssimos varões gregos e a incontinência flatular, tanto que, belo como era, não era capaz de controlar seu esfíncter nem diante do mestre Platão. Aliás, Alexandre, o Grande, obteve memoráveis vitórias bélicas graças ao efeito destruidor que os peidos de seus joviais soldados provocavam nas hostes inimigas. Felipe, o Belo, acabou por legar a França a excelência na produção de perfumes, sem os quais a sua corte não teria sobrevivido em meio à fedentina que a cercava.

Certo é que, desde os tempos imemoriais, certificar se o macho humano é indubitavelmente belo passa necessariamente pela análise da intensidade odorífera e sonora produzida pelo seu sistema digestivo. Hipocrates dissecou centenas de cadáveres, mas não conseguiu desvendar a razão de os homens bonitos peidarem com mais frequência do que os nada agraciados pela natureza. Recentemente, restou provado que oitenta por cento da serotonina é produzida pelo intestino. E como é a serotonina que nos assegura o bom humor, vinda que é da catinga do intestino, pode-se afirmar que bom cheiro e mal humor nunca andam juntos.

Não se pode, todavia, dizer que vãs foram as tentativas perpetradas pelo Pai da Medicina, se levarmos em consideração que sem elas talvez o mundo estivesse até hoje buscando uma explicação para o mau-hálito inerente a todo e qualquer baixinho. Foi medindo a extensão tubular entre as cavidades anal e bucal que Hipócrates concluiu que o mau-hálito entre os tampinhas decorre da proximidade entre elas.

De igual modo, tais experimentos tiveram o condão de legar à humanidade a mais irretorquível conclusão sobre a altíssima mortalidade entre as pessoas de estatura elevada. Basta uma visita a um asilo, por exemplo, para concluir que a expectativa de vida é inversamente proporcional ao tamanho do sujeito. Exemplos de sobra o Brasil pôde legar à humanidade através de gigantes tampinhas como Oscar Niemayer, Dona Canô, Derci Gonçalves e, no próprio futebol, o baixinho Romário.

Hipocrates, também Pai da Hipocrisia, atribuiu a elevada mortalidade dos varapaus à questão da circulação sanguínea e, para tanto, tomou por paradigma automóveis construídos pela Ford nos anos 1970/80. Três modelos eram movidos por um mesmo motor de 1800cc. Ocorre que o primeiro, o Corcel, era pequeno e leve, o segundo, a Belina, médio, e o terceiro, o Versalhes, grande e pesadão. Ao observá-los, Hipocrates percebia que o último sempre morria. Passados cerca de trinta anos, ainda observamos Corcéis ainda circulando pelas ruas e estradas, enquanto Belinas e Versalhes jazem nas sucatas.

O mesmo ocorre entre os humanos. Independentemente de sua estatura, todos são motorizados pelo mesmo tipo de coração. É óbvio que o coração do gigante se esforça mais, perdendo precocemente o prazo de validade, enquanto o do tampinha, por exemplo, dura para sempre, tanto que são comuns enquetes do tipo “você já foi num enterro de anão?”. Por outro lado, isso explica o mau humor típico dos baixinhos, em contraste ao caráter folgazão dos homenzarrões. Aliás, há uma vertente de linguistas que considera a expressão “baixinho invocado” um pleonasmo, apesar de sua entidade de classe intitular-se FBI – Federação dos Baixinhos Invocados.

Mas voltemos ao fulcro do tema aqui desenvolvido. Hipocrates, conforme dito, não logrou êxito em sua tentativa de correlacionar beleza X peido. No campo das teorias compensatórias, majoritária é a corrente que afirma existir um componente importante em tal fenômeno, que é a perpetuação da espécie. Por ela, se os homens belos não fossem dotados do dispositivo peidante jamais sobrariam fêmeas para os feiosos. Ortega e Gasset insinuam, em sua monumental obra conjuntamente escrita a dois, que os homens belos são naturalmente alérgicos ao trabalho. Afinal, a engenharia cósmica os concebeu muito mais para a reprodução, do que para a produção de alimentos, por exemplo. Daí, sem o artifício flatulante genético, a humanidade se sucumbiria pela fome. De igual modo, o conhecimento estaria estagnado na Idade da Pedra, privado de espécimes como Newton, Voltaire, Einstein e tantos outros feiosos que enfeitam a galeria dos gênios da humanidade.

Como cientista, movido pela vontade férrea de legar à humanidade os meus geniais conhecimentos, não posso fugir de uma ilação que esta tese pede. O número de fios de cabelo espetados nas cabeças humanas, que no caso da minha são cada vez mais raros! Experimente andar pelas estradas do mundo e tente encontrar um andarilho ou mendigo careca. Com certeza você não achará um, pois todos os andarilhos possuem jubas imensas, o que também acontece com os beatos e os santos, exceto, se não me engano, São Ivo, patrono dos Advogados, o que explica a exceção. Mas vá a uma reunião de banqueiros ou de homens endinheirados. Nela você verá uma profusão de luzidias carecas, razão porque é dos carecas que elas gostam mais! Isso também explica uma tendência inata, muito verificada entre jogadores de futebol: assim que ficam ricos, eles simplesmente raspam suas cabeças!

Todas essas conclusões, no entanto, ainda carecem de comprovação cientifica. Por outro lado, é essencial descobrir o lócus cerebral em que se situa o campo que responde por essa função orgânica, exclusiva dos belos. Pelo adiantado em que se acha o esforço planetário para desvendar o DNA, é possível que brevemente saibamos qual a sequencia que dita tal herança genética. Vislumbra-se até a possibilidade de intervenções cirúrgicas capazes de reverter situações limites, como as que acometem homens belíssimos de uma constante insatisfação, melancolia, tristeza, falta de autoestima, causadoras de traumas psicológicos, não raro geradores de suicídios e uso abusivo de entorpecentes, ditadas pela SAT – Síndrome Amorphophallus Titanum, nome tomado de um tipo de flor que, embora belíssima, tem um odor tão fétido, a ponto de ser chamada popularmente de flor-cadáver. Aliás, dezenas de cientistas se revezam, de tempos em tempos, no Quail Botanical Garden (ela só floresce de sete em sete anos), justamente com o propósito de identificar se o mecanismo genético que a faz linda e, ao mesmo tempo, malcheirosa é o mesmo que faz homens lindos e peidorreiros.

Tal preocupação em arrefecer ou mitigar a síndrome aumenta na medida em que práticas ligadas à eugenia, melhor alimentação, ociosidade, cirurgias plásticas e a própria cosmética vêm concorrendo proativamente para o acentuado aumento do número de homens bonitos, mas, via de consequência, de internações em hospícios, divãs e cemitérios.

Outra razão maior para um melhor enfrentamento do problema criado pela SAT é o número de belos machos que abrem mão voluntariamente dessa condição, ingressando no gênero feminino (o transexualismo). Deontologicamente, não deve a ciência obstaculizar a vontade de migrar para outro gênero. Porém, no caso dos portadores de SAT, a questão não é de cunho volitivo, pois no íntimo eles querem permanecer machos. Porém, a beleza de que são portadores acaba por facilitar tal migração de gênero (É sabido que quanto mais bonito é o sujeito, menos complicadas e, por conseguinte, menos onerosas são as cirurgias transexuais). A esse facilitador alia-se a dificuldade de manter parceiras, em razão da repulsa provocada pela incontinência flatular. Como os homens comuns – feios, sobretudo – não possuem olfato delicado e nem se podem dar ao luxo de dispensar companhia, os ex-homens bonitos, uma vez transmutados em fêmeas, passam a não enfrentar mais o drama da solidão, ainda que continuem flatulentos.

Uma corrente científica rechaça o caráter inibidor da atração de fêmeas, decorrente da SAT. Sustentam que, para a maioria taxionômica das fêmeas, a beleza do macho do tipo SAT suplanta a ojeriza resultante do mau-cheiro. Mais recentemente suas lucubrações vêm caindo por terra e os argumentos de que valem seus detratores, inclusive Carlos Mota, vêm sendo extraídos da observação das Paradas Gay, ocorridas em grandes cidades do Planeta. De fato, as megalópoles, palco de tais paradas são as mais poluídas e malcheirosas. Segundo eles, isso estimula a vontade de mudar de sexo. Só em São Paulo, tomando como parâmetro a última parada, metade de sua população trocou de sexo. Estatisticamente, para sossego dos que temiam consequências graves, o número de homens e o número de mulheres não se alteraram em absoluto, pois os 50% que eram homens se transformaram em mulher e os 50% que eram mulheres viraram homem.

O problema, conforme se vê, é mais sério do que se pensa. Mas a ciência e a tecnologia não se descuraram dele, tanto que na divisa da França com a Suíça foi construída uma passarela de 27 quilômetros de extensão – uma espécie de sambódromo circular – cem metros abaixo da superfície. Neste imenso túnel, denominado Grande Colisor de Hádrons (Large Hadron Collider), serão realizados importantes experimentos visando conhecer a idade do Universo.
Enganam-se, porém, os que pensam que o LHC foi feito apenas para isso. Iniciado no conservadorismo de Margareth Thatcher e Ronald Reagan, o projeto de tal passarela subterrânea – justo com o sentido de garantir a privacidade das pessoas que nela vão desfilar, conforme demonstrarei adiante – jamais receberia verbas governamentais. Temendo isso, seus idealizadores escamotearam a sua finalidade verdadeira.

Ora, para o tipo de experimento que eles alegam ter sido construído – chocar prótons contra os outros e fazer medições – jamais seria necessário um túnel, muito menos um túnel tão oneroso. Um túnel circular, nem pensar, pois a melhor trajetória de um projétil ou de um feixe de raios é a linha reta! Bastaria, neste caso, construir tal acelerador num deserto, ou no fundo do mar, com tubos bem reforçados e dispostos em linha reta.

Uma estrutura circular e feita dentro do chão só se justifica para outras espécies de experimentos científicos, nas quais, onze em cada dez cientistas, incluem a síndrome aqui tratada.

Que se preparem os céticos. Fracassada a tentativa de datar o Universo, com certeza uma Grande Parada de Gays, Lésbicas, Transexuais, Travestis e Simpatizantes será realizada no Grande Túnel, encobrindo os seus participantes, principalmente os que não querem sair do armário, e descortinando para os cientistas respostas corretas às apreensões que tanto os perseguem, entre elas a que leva os homens bonitos à incontinência flatular.

No mais, haja falta do que fazer!
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