Platão acreditava que as almas escolhiam seus destinos antes de nascer. Seu pupilo, Aristóteles, discordou e viu o destino como consequência natural das ações e causas do mundo. Os estoicos já viam na razão divina a inevitabilidade da predestinação. Epicuro defendeu o livre arbítrio, enquanto Agostinho e Tomás de Aquino uniram a ele o conceito cristão de plano de Deus. Aí veio Leibniz dizendo que tudo isso significava que vivemos “no melhor dos mundos possíveis”, embora tenha sido "premiado" com Pangloss, no Cândido de Voltaire. Kant adicionou a moral, Nietzsche, que o destino é algo que criamos, enquanto Sartre foi além: o destino não existe.
Eu nada sei. Adoto a isenção agnóstica e não afirmo nem nego nenhuma das teses da filosofia. O que sei é que recebi uma chamada telefônica 26 anos atrás pedindo que fosse pra casa porque você passara mal. Cheguei, ligamos para o pediatra e combinamos que nos encontraríamos no Pronto Socorro do Hospital. Chegamos primeiro, você então com 3 anos foi atendida e encaminhada para exames. Nada conclusivo até que no corredor, em frente a uma das salas de exame, aconteceu o debate entre a cirurgiã pediátrica de plantão e o pediatra, que a essa altura tinha se juntado a nós. Ele pensara numa possível hérnia de deslizamento quando recebeu da cirurgiã uma resposta categórica: “não sei... vamos abrir”.
Cirurgia, tensão e enfim a resposta: apendicite supurada.
Tudo correu bem na cirurgia, mas o pior ainda estaria por vir. 8 dias de incertezas, febre, a luta contra infecções que poderiam desaguar numa sepse. Lembro-me que no desespero, quando liberaram o apartamento para onde nos dirigiríamos, peguei a chave sob pretexto de verificar o quarto, entrei, bati a porta atrás de mim e quase “troquei de mal com Deus” caso levasse meu bebê de 3 anos. O desespero cega, embrutece. Felizmente Deus tinha outros planos e a cirurgiã pediátrica do Hospital entraria naquela noite para a história da nossa família para sempre. E eu, trilharia o caminho para tornar-me um ex-ateu. Pena que a vida e as situações nos desviem de agradecer o suficiente, se é que isso seria possível. Agradeço a Deus e peço que Ele a agradeça por nós.
Essa história lhe foi contada inúmeras vezes ao longo de sua infância, e seja isso ou lá o que for que tenha plantado em sua cabeça a obstinação inegociável para a medicina, fez também com que sua vocação exercesse um papel principal em sua vida, norteando seu destino.
5 anos. Um total de 4 anos de estudo em cursinhos intermediados por quase 1 ano de paralisia, depressão, motivados pelos insucessos anteriores. Lembro-me ainda da frase que frustrada um dia proferiu entre lágrimas: “minha turma do terceirão já saindo da faculdade, e eu me formando em pré-vestibular”.
Retomou. Seguiu.
Um dia, maio de 2019, recebi a notícia de que seria expatriado e moraria no exterior por 3 anos. Planejamos que se não passasse até nossa partida, viria conosco pra relaxar por um tempo. Em junho, como não poderia deixar de ser, orgulhosa disse que NÃO! O caminho seria a medicina, sozinha, sem família pela primeira vez na vida. Foi, viu e venceu. Superou seja lá o que emergiu como obstáculo no caminho, um sinal de sua crescente resiliência, maturidade, determinação. Mais do que isso, a obstinação fomentada pela vocação. Nunca teve dúvidas. Nem a solidão, a saudade, os desafios, fracassos, nada!!! Foi, viu e venceu.
A nós, sobrou o orgulho; ter deixado uma pirralha patricinha para trás e recebido de volta uma mulher que ensina, une e reúne a família. Nem sem sei se merecemos. Foi assim com o irmão em crise, assim nos conselhos e confissões da irmã, foi assim até mesmo diante da burrice machista e rompantes do pai, na ampliação das perspectivas da mãe. Virou nosso oráculo, nosso ombro amigo, nossa confidente, ouvindo com empatia e ajudando... sempre.
Pode parecer exagero, mas nunca disse que “minha filha” é perfeita (só pra mim). Ninguém é, e disso sabemos muito bem. O ponto aqui é outro: vejo a vocação para entender as mazelas humanas, o espírito bondoso para ajudar genuinamente, com amor, e se isso não for a maior virtude de um médico, a despeito de todo conhecimento técnico e experiência, vivemos no mundo do House, M.D. e não no de Avicena (Ibn Sina). Sinceramente, espero que não, o mundo já anda feio demais.
Uma ressalva aqui, porém, resumiria tudo: Dr. House é só um seriado da Fox. Avicena, ao contrário, embora possa também ter sido personagem do filme alemão Der Medicus de Philipp Stölzl baseado no livro The Physiciande Noah Gordon, foi de carne e osso e pioneiro na compreensão das doenças e seus tratamentos. Nasceu em 980 na cidade de Bukhara, que hoje faz parte do Uzbequistão, e morreu em Hamadan, no atual Irã, em 1037. E como espírito vivo, continua a perpetuar a vocação para tantos como você, my physician!!!
Ave Avicena, ave Luiza! Voa...
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