segunda-feira, 21 de abril de 2014

Notinhas Cínicas

A maioria de nós persegue desesperadamente justificativas e traços que nos tornem diferentes dos outros, únicos. É uma espécie de compulsão.
Sentimo-nos beijados pela providência como se Deus tivesse escolhido entre as mais de sete bilhões de pessoas do mundo você, sim, você mesmo, com toda a sua falta de graça, propósito, talento, realizações. Afinal, os desígnios de Deus são inescrutáveis, você pontuaria ao final.

Isso é absurdamente comum. Todos os dias vemos depoimentos de inebriados por orgulho ou vaidade catapultando sua própria importância à estratosfera, como que pudéssemos esperar, a partir dali, uma mudança certa no curso da história como consequência do resto de sua existência; Ou tolices vindas de celebridades - ainda mais comum - adoecidas pela fama e exposição, mesmo que sua maior contribuição tenha sido o Xou Da Xuxa, a supressão do plural na linguagem coloquial ou o chicote da Tiazinha.
Na maioria das vezes nada acontece... ou acontecerá por causa disso e o mundo permanecerá do jeito que é e seguirá seu curso natural, por razões óbvias. Mas quase todo mundo quer ser o novo Gandhi, ou Churchill, ou Che, ou Mandela, ou Lenin, fazer a diferença. Uns tem isso em maior grau, outros em menor.

(...)

A autocrítica necessária e o senso das proporções é o que me separa, por exemplo, de Wagner ou de Zé Camargos. Definitivamente não comporei uma Cavalgada das Valquírias nem terei o talento comercial que não adquiri até hoje, aos 47.
Mas autocrítica e senso das proporções parece luxo que não existe mais hoje em dia, tempo dos avatares. Todo mundo é sensível demais, justo demais, altruísta demais, culto demais... Não há feiura nem burrice, só perfeição, ainda que veleidade mais irreal que o socialismo inevitável.

Miseravelmente, a preparação e o conhecimento desses falsos diferentes costuma ser inversamente proporcional à sua megalomania e egolatria. Que o diga Kanye West, ou Lula.

Para muitos de nós, cuja existência está circunscrita ao nosso comezinho jeito de ser, a saída é broadcast nossas causas, lutas e mais o diabo que o parta nas redes. Mesmo que nossa compreensão acerca do que falamos não consiga nem mesmo atravessar a rua. Quem se importa? Uma imagem vale mais que mil ações... da Petrobras. E quem lê não sabe patavina mesmo?!?! e não tá nem ai. É um circo de horrores: avatares celebrando sua dignidade, altruísmo, abnegação, cultura e tudo o mais que efetivamente não têm nem os diferencia de qualquer outro idiota, como eu. Fakes por tras de um nome e uma foto no Face. Afinal é tudo virtual mesmo, fictício, incluindo ai as qualidades das quais se gabam incessantemente. É a chance de construir sua autoimagem ideal.
Por outro lado permite que pessoas não tenham de enfrentar a dura realidade do espelho, deparar com suas inexpressivas e inúteis existências. Se lá atrás acharam-se os escolhidos, diferentes tal como Jobs ou Einstein, Paul McCartney ou Schopenhauer... têm a obrigação agora de provar a que vieram...
E dá-lhe besteira.

(...)

A soberba, sétimo pecado capital, é o preferido do capeta, pelo menos para Al Pacino em o Advogado do Diabo.
Roger Scruton já teorizou como sonhadores inescrupulosos desconsideram a natureza humana para vociferar que podem mudar o mundo. Estabelecer um objetivo nobre desconsiderando irresponsavelmente o choque entre epifania e realidade ou os efeitos colaterais de sua execução é nada mais que demagogia ideológica. A história do século passado nos mostra que via de regra essa obsessão sempre termina em cerceamento das liberdades e morticínio.

(...)

Alex Fleming e a penicilina mudaram o mundo. O computador e a Internet mudaram o mundo, tanto quanto os foguetes V-2. Gutenberg mudou o mundo. Henry Ford mudou o mundo.

Eu cá sou infinitamente mais modesto. Tento acreditar apenas ser um canalha a menos na face da terra. Servir minha família já é a missão da minha vida e considero-a tão nobre quanto o Teorema de Pitágoras. Afinal, sei que Pitágoras não sou e entre o teorema e os meus, adeus matemática. É bom ter ciência de sua insignificância.

(...)

[O cinismo foi uma corrente filosófica fundada por um discípulo de Sócrates chamado Antístenes, cujo maior nome foi Diógenes de Sínope, por volta de 400 a.C., que pregava essencialmente o desapego aos bens materiais e externos. O termo passou à posteridade como caraterização pejorativa de pessoas sem pudor, indiferentes ao sofrimento alheio (que em nada se assemelha a origem filosófica da palavra).
Esta atitude era parte de uma procura da independência pessoal. Alguns foram longe demais, rejeitando mesmo as decências básicas. Para poderem manter a compostura face à adversidade, reduziam as suas necessidades ao mínimo para garantir a sua autossuficiência. Mais do que uma teoria, era um modo de vida.1 Para os Cínicos, a vida virtuosa consiste na independência, obtida através do domínio de desejos e necessidades, para encorajar as pessoas a renunciarem aos desejos criados pela civilização e pelas convenções. Os cínicos empreenderam uma cruzada de escárnio anti-social, na esperança de mostrar, pelo seu próprio exemplo, as frivolidades da vida social.2 ]

Queria mesmo era ver os avatares realizando seu palavrório, como Diógenes nas ruas de Atenas. 
Menos imagem e mais atitude. 
Menos Internet e mais filósofos em barris pela rua.
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Figura: Diógenes, de John William Waterhouse

Texto entre colchetes[ ] acima retirado da Wikipédia com as referências abaixo:
  1. Ir para cimaDicionário de Filosofia coordenado por Thomas Mautner. Editora 70, 2010
  2. Ir para cimaSimon Blackburn, Dicionário de Filosofia. Gradiva, 1997

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A volta do guará... ou: Missiva


Para Tusta... pai segundo.

Entre nossa penúltima e última vez muita coisa mudara. O pomar, a horta, as flores, a grama, as novas construções da fazenda. 
No entanto, duas permaneceriam perturbadoramente inertes, soltas em nossa órbita como se 1 ano, 365 dias não fossem suficientes para transladar um estado de espírito, trazer o inverno de uma opinião do estio...

A primeira fora definitivamente nossa perspectiva dicotômica acerca de nossas escolhas... racionalismo ou fé, realismo ou idealismo, multiculturalismo ou antropofagia, xenofilia ou chauvinismo, conservadorismo ou progressismo... 
Nesse ponto, considerei - como de costume - positivos nossos embates. Afinal, lembrando o bendito "maldito" Itamar Assumpção cheguei até mesmo a cantarolar mentalmente,
"(...)Aprendi que viver cansa, mesmo vivendo na França
Mesmo indo de avião
Aprendi que a desavença é por que sempre alguém pensa 
Que ninguém mais tem razão
Aprendiz de feiticeiro
Aprendiz de feiticeiro
Aprendi que tudo passa, tomando chá ou cachaça
Tomando champanhe ou não..."

Diferenças eram naturais e pautariam para sempre o que nos tornava... indivíduos, únicos.

Porém, a segunda despertara nele a mesma reação, a mesma dor de um ano antes. Abateu-me... 
  
(...)

Nada sabia... nem nutria pretensão alguma de tornar-me um cordeiro de Deus como minha mãe... fosse por mérito ou arrogância. Ao contrário, soubera sempre foi da miopia e insignificância que me perpassavam, ainda que fizessem de mim não mais que um errante crivado de dúvidas. Desconfiava mesmo ser capaz de remir os erros todos, um dia.

Ainda assim, num rompante indignado, eximi-o da culpa asfixiante, da dor que carregava pelo desacerto do qual não fora a causa nem o meio, da responsabilidade, enfim. Fazia isso ainda que soubesse ser ninguém autorizado a remir vícios, reaver almas cansadas, combalidas. Naquele instante, absorvia sua dor, digeria sua culpa e sabia, não a merecia... Não aquela, disso tinha certeza.
Lembrava ao mesmo tempo que tal sentimento fizera de minha mãe um zumbi insone, mera escrava autoencarregada da expiação dos pecados do "mundo" - ou dos outros. No entanto, com ela qualquer diálogo teria sido absolutamente impossível.

   Sabia... 
   Até certo ponto, todos somos responsáveis por nossas escolhas. 

(...)

Não citando o autor, retirando assim a possibilidade de julgamento ad hominem, enviei-lhe a missiva e pedi que lesse.

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Thomas Sowell dizia: “Nunca entendi por que é ‘ganância’ você querer conservar o dinheiro que ganhou, mas não é ganância querer tomar o dinheiro dos outros.” Mutatis mutandis, a obrigação moral que os ricos têm de ajudar os pobres, mesmo quando seja tomada em sentido absoluto e intransigente, não implica jamais que os pobres tenham o “direito” de ser ajudados.
Todo direito de um implica obrigações para algum outro, mas nem toda obrigação que pese sobre alguém gera direitos para quem quer que seja.
A razão disso é simples e auto-evidente: toda e qualquer obrigação moral ou legal é relativa porque limitada à disponibilidade de meios, ao passo que um “direito”, uma vez consagrado, é universal e incondicional. Decretado que os pobres têm “direito” à ajuda estatal ou privada, a simples inexistência dos meios de ajudá-los se torna automaticamente algo como uma ilegalidade ou um crime, e a sociedade inteira, quanto mais pobre, tanto mais merecerá o rótulo de criminosa, de modo que a pobreza de uns será uma espécie de mérito e a de todos um delito abominável. Se isto está muito sintético, analisem e verão que é certo.
 Da incompreensão dessa obviedade deriva a noção monstruosamente perversa de que uma sociedade onde haja pobres, ou muitos pobres, é uma “sociedade injusta”. Em princípio, e à luz da razão, toda obrigação moral ou legal está condicionada à regra áurea do Direito: Ad impossibilia nemo tenetur, “ninguém é obrigado ao impossível”. Por isso mesmo a obrigação de ajudar os pobres não dá a estes nenhum direito de exigi-la. A absurdidade dessa exigência aparece nítida no delírio de Luís da Silva no romance Angústia de Graciliano Ramos:
“Há criaturas que não suporto. Os vagabundos, por exemplo. Parece-me que eles cresceram muito, e, aproximando-se de mim, não vão gemer peditórios: vão gritar, exigir, tomar-me qualquer coisa.”
E Luís da Silva não é nenhum burguês atemorizado ante a revolta dos infelizes. É ele mesmo um pobretão ressentido, sem dinheiro para o aluguel. Só no mundo das alucinações a pobreza é, por si, fonte de direitos.
Antigamente, até os marxistas compreendiam isso. Julgavam que o proletariado industrial tinha o direito de expropriar a burguesia não pelo simples fato de ser pobre, mas por ser o criador material da riqueza social. A horda de miseráveis improdutivos, o Lumpenproletariat, não lhes merecia senão desprezo. É o óbvio dos óbvios: ninguém se torna um “expoliado” pelo simples fato de estar sem dinheiro. Para ser um expoliado é preciso produzir primeiro alguma coisa e depois ser despojado dela injustamente. Como o proletariado se recusou a aderir às revoluções, os teóricos do marxismo promoveram a escória lumpenproletária ao estatuto de credora universal e portadora, ipso facto, da autoridade intrínseca das virtudes morais faltantes ao resto da sociedade. Daí ao endeusamento dos delinqüentes o passo é bem curto.
Da insensibilidade a esses fatos vem a noção de “dívida social”. Qualquer candidato que proponha a sua eleição como o pagamento de uma dívida social é, com toda a evidência, um charlatão do qual não se pode esperar nada de bom. Se a dívida existe e é social, não pode ser jamais resgatada mediante pagamento a um só indivíduo. O fato mesmo de que este se apresente como credor simbólico, herdeiro e resumo vivo de várias gerações de interesses lesados, já mostra que se trata de um vigarista, pois nem aceita pagamento simbólico nem tem como repassar o pagamento efetivo aos credores defuntos de cujo crédito se apropria indevidamente.
Todo eleitor em seu juízo perfeito deveria pensar nisso antes de votar em tipos como Luís Inácio Lula da Silva ou Barack Hussein Obama. Mas, tão logo a pobreza se torna fonte de “direitos”, é inevitável que o carreirista desprovido de méritos próprios se invista de prerrogativas imaginárias derivadas da pobreza alheia, impondo-se como recebedor único da “dívida social” -- um vigarista elevado à segunda potência. [1] 
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Ao final pontuei: sabia que não negaria ajuda... nunca. Como minha mãe, permaneceriam pra sempre subjugados ao sangue e ao fervor cristão... ou ao superego. Aquilo dava-me certa inveja até, afinal, nunca tivera tal pretensão, preso à minha insípida pequenez mundana.

Sabendo que a culpa não lhe cabia, cabia menos ainda em minha mãe, pedi-lhe que se livrasse dela, que voltasse por mim a procurar o lobo guará da mata, cuja presença não sentia mais ali.

Era aquilo ou eu mesmo me afogando em culpa, sem beira, incólume como se tivesse apenas uma pedra no peito.
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[1] Olavo de Carvalho [in: Duas Notas], Diário do Comércio, 8 de janeiro de 2013.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Cruzeiro de C é R

Não sou hipócrita. Fair play de C é R. Quero que o Cru... se exploda. Sempre quis. Nunca neguei, em tempo algum. Isso faz parte do DNA do atleticano. Quem disser o contrário, ou não é galo ou tá doente do pé.
Porém, ainda mantenho certa sanidade quando discuto futebol. Embora concordasse que estádios fossem o lugar apropriado para salivarmos feito cães raivosos, durante 90 minutos e separados por cercas, cordões de isolamento e a polícia (isso antes da barbárie de Santa Catarina ... ou da briguinha entre os "torcedores do PT" e o resto. Pão é pão, queijo é queijo... e política não é futebol. Vide http://www.strategosaristides.com/2010/10/depois-de-ver-o-noticiario-de-ontem-com.html e aqui http://www.strategosaristides.com/2010/10/o-cachorro-de-pavlov_24.html), teimo em continuar pensando, buscando causas e razões para as coisas, usando na medida da minha ínfima inteligência, a lógica (a Aristotélica meu filho...). Ato desprezado hoje em dia, bem sei.
E antes que um mané qualquer confunda esse fanatismo, essa paixão por um time com vandalismo, barbárie e essa bestajada de torcidas organizadas que deram agora pra brigar até em festa de comemoração de título, interrompo: perá lá psiu! Tô aqui escrevendo pra quem sabe ler... Não é analfabeto funcional e nem cancela festa de comemoração com cerveja de graça na base da porrada entre patrícios.

Nas minhas pelejas contra a bicharada nunca teve contato físico, e por Deus, espero que nunca tenha. Só de imaginar me agarrando a um cruzeirense já me dá urticária. Pior, vai que o cabra se apaixona?
Dai que um jogo mal jogado do meu glorioso não se transforme em nada mais que um jogo mal jogado. Mesmo que o juizinho tenha inventado um pênalti numa hora horrível, nada mudaria a péssima partida. Perdemos vexatóriamente, mas merecidamente. Que o Raja atropele o Bayern (difícil...). Ano que vem tem mais.
(...)
Meu filho chorou quando da derrota. Expliquei a ele que meu calvário havia durado até a Libertas desse ano, que não se abatesse que isso faz parte. Pra um time que me deu a alegria que tive em Julho, desenterrando a cabeça de porco plantada por algum bichano azul no CT de Vespasiano, tiro o chapéu, aplaudo e me preparo para o ano que vem. Vai ter mais, alegrias e tristezas, por certo. Muito obrigado ao galo esse ano, independente do vexame da quarta. Mas não tenho esperança de que a azurada entenda do que estou falando. No hope.

No entanto, depois de 3 dias de insultos diversos pululando de toda parte, não poderia deixar de dar uma resposta aos que fizeram a escolha de torcer para o Cru... mas que não tiram o galo da cabeça pelos últimos dois anos. Preocupado com tamanho infortúnio, pesquisei seu mal e, parafraseando o Olavo, descobri que sofrem da famigerada 'obsessão do galo doido do inferno'.
Isso processa-se da seguinte maneira: toda noite quando o cabra vai dormir, sobe do fundo do inferno um enorme galo de fogo, entra pelo fiofó do incauto bichano azul, vai até a cabeça, queima tudo, transforma tudo em vácuo, enchendo depois a caixa craniana de penas de galináceo. Dai em diante, é só pena que voa em tudo o que o infeliz falar... E o maganão não tira mais meu galo da boca, mesmo sendo ele um Super Mario Bros. (aquele bigodinho foi piada pronta) azul. Enternecido com tão grande revés obsessivo, perdôo-lhes e até concordo com eles hoje: mundial de C é R.

Verdade verdadeira: C de Cru sempre será R.

Cospe ou engole?

Um amigo, cuja veia cômica mereceria mais sorte, tinha mania de abordar alguém da turma com a deliberada intenção de cortar e mudar o assunto, lançando ao interlocutor a pergunta infame:
- você cospe ou engole?
O resto era só riso.

Percival, no artigo abaixo, não está de brincadeira. Mas eu não resisti à analogia. No fundo, pra mim que partilho da definição de livre pensamento do Millôr, o resto é mesmo só boquete ideológico. Pois é disso que se trata.
Vai ai...

A VIDA SEM MENSALÃO
Percival Puggina


Mensalão, você sabe o que é. É aquele crime que levou José Genoíno a demitir-se da presidência nacional do PT em 9 de junho de 2005 e o mesmo crime pelo qual Tarso Genro, ao substituir Genoíno no posto, pediu a "refundação" do partido. É o mesmo crime que conduziu à exoneração de José Dirceu do cargo de ministro-chefe da Casa Civil em 16 de junho de 2005. O mesmo crime pelo qual Lula pediu perdão ao país, em rede nacional, no dia 12 de agosto de 2005. O mesmo crime que, em setembro de 2005, constrangeu centenas de militantes e dirigentes petistas a deixar o partido, filiando-se ao PSOL. O mesmo crime que justificou a cassação do mandato de José Dirceu pela Câmara dos Deputados, em 1º de dezembro de 2005, numa votação secreta, com placar de 293 votos a favor e 192 contra. O mesmo crime que foi reconhecido como existente pelo atual ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em entrevista à revista Veja, na edição do dia 20 de fevereiro de 2008. O mesmo crime que deu causa à condenação de 25 réus por um plenário do STF onde oito dos onze magistrados foram indicados pelo PT. O Mensalão é o mesmo tipo de crime que os petistas, em uníssono, acusam ter ocorrido anteriormente em Minas Gerais, num governo tucano (o processo está no STF aguardando decisão sobre onde deve ser julgado).

O Mensalão é, também, por fim, aquele crime que as mesmas legiões de petistas, em misto de exaltação cívica e amnésia seletiva, punhos erguidos ao vento, afirmam, agora, que simplesmente não existiu! Gerou uma hecatombe interna, mas não existiu. A gente compreende. É a causa. Ela sempre está em primeiro lugar. Ela ocupa o centro de um altar onde tudo se sacrifica - a verdade, a história, a lógica, o amor próprio. É o velho tema dos fins e dos meios, que todo mundo conhece. Uns cospem fora. Outros engolem sem nenhuma dificuldade.

Durante muitos anos, a disciplina da base do governo vinha sendo mantida com a liberação de emendas parlamentares. Era um mecanismo que funcionava em três tempos: 1º) o congressista apresentava propostas pessoais ao Orçamento da União, dentro de um limite que neste ano ficou em R$ 15 milhões para cada um, destinando os recursos para demandas de suas bases eleitorais; 2º) o Congresso aprovava o Orçamento; 3º) as emendas só eram liberadas, gradualmente, ao longo do exercício, segundo o bom comportamento do seu autor nas votações de interesse do governo. Nesse caso, para que o Mensalão? Ora, o Mensalão foi um adicional, um "por fora", agregado a algumas bancadas, ou a parte delas, para - digamos assim - aumentar o entusiasmo da adesão dos deputados ao governo petista. Congressista feliz com o governo faz o governo feliz.

Tivessem os líderes dos partidos beneficiados com os repasses do Mensalão revelado os nomes dos colegas recebedores, haveria, certamente, mais de uma centena de réus no processo. Os líderes, no entanto, suportaram sozinhos os ônus do criminoso papel desempenhado. Roberto Jefferson, líder do PTB, indagado sobre quem recebera os valores que lhe foram entregues, respondeu que isso ele não revelaria nem amarrado num toco levando chicotada.

E agora? O Congresso Nacional aprovou, há poucos dias, um projeto que torna obrigatória a liberação das emendas apresentadas pelos congressistas, com a condição de que sejam destinadas à saúde pública. É um avanço. Acabou a chantagem do governo sobre os parlamentares através da liberação ou não dos recursos correspondentes às emendas que apresentam. E acabou também o Mensalão, porque dá cadeia. Como fica, então, a negociação do governo com sua base, na ausência de moeda de troca? Como assegurar-se a fidelidade de uma base habituada a negociar periodicamente seu apoio ao governo?

A política nacional desceu a um nível baixíssimo. O presidencialismo multipartidário de cooptação impõe seus rasteiros estratagemas de governabilidade: apoio é coisa que se compra. De momento, o governo tem apenas cargos para oferecer. Isso não basta, os cargos já estão ocupados e não assegura maioria para todas as votações em que sua base deve permanecer unida. Que será que vem por aí? O sistema ficou manietado!
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* Percival Puggina (68) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, membro do grupo Pensar+.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Unanimidade burra

Nunca gostei de chamar a atenção nem de falar em público... menos ainda de tocar as duas ou três músicas que sei ao violão - das quais não consigo mesmo me lembrar das letras.
Enfim, constato novamente que nasci mesmo desprovido de qualquer carisma, esse dom que se concedido ao cabra errado transforma charlatães em gurus, picaretas em intelectuais, analfabetos em colunistas do New York Times.

Evidente que para um psicólogo ou sociólogo progressista o diagnóstico seria diferente e as declarações acima, filtradas pelo crivo do politicamente correto e da novilíngua engajada definiriam-me como reacionário pequeno burguês, racista, preconceituoso, fascista, etc. etc. etc., seja lá o que isso signifique.
Qual explicação qual nada... palavras-gatilho são o novo moedor de consciências e o inibidor de sinapses mais efetivo que existe transformando idiotas úteis em linchadores e juizes de crimes de opinião. Junte-se a isso os artigos dos pseudo-intelectuais (os intelequituais de quem o Millôr tirava sarro) que dizem explicar, mas ao contrário, só usam e abusam da erística (quando muito) para impor seus sofismas. Como argumento de autoridade citarão Singer, Safatle, Chaui e até Frei Betto. Todos pensadores de uma nota só, ou virão com um desses artigos pinçados de algum AIE na imprensa ou blogosfera oficiosa, idônea e "livre como um táxi". A geometria Euclidiana nas mãos desses think tanks ideológicos só teria negado o postulado das paralelas se atendesse ao partido. Caso fossem o padre jesuíta Girolamo Saccheri (1667-1733), certamente teriam queimado o resultado frustrado da prova por negação ou redução ao absurdo do quinto postulado de Euclides e estaríamos até hoje sem as geometrias Riemanniana ou de Lobachevski. E Einstein teria penado um pouco mais pra explicar a relatividade sem elas. Relatividade, que não por acaso - mas no sentido pejorativo - tornou-se o mantra para validar qualquer descalabro à luz da causa. É a zorra...
A militância é tão extensa que hoje o linchamento de qualquer opinião que não se alinhe ao status quo é norma e fato. Sequestraram a bondade e tornaram-se os guardiões do que é certo ou errado.

Do blog do Briguet trago referência a dois tipos dessa trupe iluminada no passado:
Goebbels disse: “Aqui eu decido quem é e quem não é judeu”.
Beria disse: “Aqui eu decido quem é e quem não é inimigo do povo”.

Hannah Arendt sabia bem onde terminariam arroubos como esses e dizia: "O revolucionário mais radical se torna um conservador no dia seguinte à revolução."

(...)

Com isso me lembro imediatamente da frase de um amigo: "quando me vejo me acho uma b... Mas quando me comparo..."

(...)

Continuo me achando um m... E sei que a cultura anda escondida por ai, dispersa em livros e livros aos borbotões, acima e abaixo do óbvio propalado oficialmente como tal. De quando em vez me atrevo a escavar e ler algo relevante... ainda.
No entanto, a preguiça me compele no mais das vezes ao voyeurismo, puro masoquismo, como ver a TV Câmara ou TV Senado na época em que não tinha TV a cabo.
Ai, por vezes sou acometido de súbita ira e vontade lancinante de esculhambar com algumas tolices e paralogismos que leio das redes.
Mas (in)felizmente passa minutos depois. Lobão (logo ele) me ensinou que isso seria o mesmo que jogar xadrez com pombo. E francamente, ando sem a menor paciência de falar com malucos.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Puppets

Nunca tive paciência para ver a Ana Maria. Como se ela já não fosse o bastante, seu louro José ainda "poria meus neurônios no pau sem cachorro". Ai me lembrei de outros programas que abusam do artifício de botar bonecos em cena pra falar coisas engraçadas com aquela sutileza e naturalidade de um trator desgovernado no canteiro de hortaliças.
Tem a Palmirinha e seu irritante Guinho, tinha o Ratinho e seu xaropinho. Todo esse humor pasteurizado me lembra alguns filmes do Mel Brooks, que tirando o pastelão cult do Agente 86, nunca me fizeram rir.  Mas sei que o errado sou eu, afinal, o American Film Institute elegeu 'Primavera para Hitler' como uma das 100 melhores comédias de todos os tempos. Errado e mal informado, porque esse ai nunca nem vi.
Mas voltando aos bonecos de programa - honi soit qui mal y pense, me refiro aos bonecos que nada tem a ver com sexo remunerado -, parece ser mandatório ter algumas qualidades:
Egolatria - tem que aparecer mais que a protagonista do programa; ser humorista, ainda que o pior daqui até Marte; e falar feito uma matraca mesmo sem nada pra dizer.
Bons tempos aqueles em que via na TV Cultura o Castelo Rá-Tim-Bum com minhas filhas pequenas. Ainda me lembro do Godofredo, do Mau descendo pela tubulação como numa montanha russa a repetir:
- Tô chegando... Tô chegando... Tô chegando... Godofredo?!?... Cheguei.
Depois desatava a vangloriar-se de suas maldades, que iam desde lambuzar manteiga na árvore da Celeste (a cobra cor-de-rosa do Castelo), até o passeio no jardim para "amassar, pisotear, destruir todas as flores"... pra logo depois exigir do Godofredo que não desse com a língua nos dentes revelando que ao invés experimentara a manteiga, gostara e convidara Celeste para saborear pão com manteiga; e que o jardim, permanecera intacto, com as mais belas flores.
Eram todas maldades de mentirinha, ritos de um quadro num programa infantil que culminava invariavelmente na gargalhada fatal do Mau, aquela que ninguém esquece.
Fazia sentido, e era deliciosamente engraçado.
Mas hoje o que vemos é a infantilização de programas para adultos. Quando não lançando mão de bonecos, usam o funk, axé, a novela, a fazenda, a gostosona, o pânico, as redes sociais.

Do artigo 'Bebezões a bordo', por Pedro F. Bendassolli e Maurício C. Serafim FGV-EAESP, http://rae.fgv.br/sites/rae.fgv.br/files/artigos/4710.pdf   leio o seguinte:

Para se ter uma idéia melhor da referida inversão, vamos apresentar quatro visões até então influentes sobre o que é ser adulto. 
A primeira vem da história: na Idade Média, a criança não tinha um estatuto próprio, sendo socialmente vista como um adulto em miniatura. Isso era expresso na arte da época, como mostrado na figura abaixo. Nesse sentido, exigia-se da criança comportamentos iguais aos que se exigiam do adulto, em um fenômeno que poderíamos chamar de “adultização da criança”. Foi só a partir do século XVII que a criança começou a ser vista com características próprias, com um mundo à parte, diferente do mundo adulto no qual deveria se inserir com o tempo.
A segunda visão vem da filosofia. Ser adulto – na influente visão do Iluminismo, corrente filosófica iniciada com os filósofos René Descartes e completada por Emmanuel Kant – é desenvolver o intelecto, fazendo-o chegar à maturidade – fato tangibilizado pelo desenvolvimento do discernimento, da autonomia de idéias, da capacidade de decisão própria e da responsabilidade em relação a elas. O indivíduo idealizado pelo Iluminismo era alguém “consciente de seus pensamentos e responsável por suas ações”. Dessa forma, o homem adulto poderia ser entendido como sinônimo do “homem que ousa pensar”.
A terceira visão vem de uma tradição sociológica específica. Para o influente sociólogo Norbert Elias, por exemplo, o homem moderno surge graças ao processo por ele denominado civilizacional. Embora Elias não se interrogue especificamente sobre o que é ser adulto, empreende um brilhante estudo no qual mostra que as antigas “classes bárbaras” (pessoas “sem modos”) foram pouco a pouco se convertendo em classes civilizadas, hábeis à mesa, no uso de garfo e faca, no domínio de comportamentos públicos. Ser adulto, nesse caso, é ser alguém capaz de dominar uma determinada etiqueta social.
E a quarta visão vem da psicanálise. Sigmund Freud foi um dos primeiros pensadores a mergulhar fundo na vida mental do adulto, vendo-a como reflexo – ou continuidade, sob outra perspectiva – da vida infantil, repleta que é de  conflitos e dilemas não resolvidos. Em uma interpretação ampla da visão freudiana, poderíamos dizer que o adulto é alguém capaz de responsabilizar-se por seus próprios desejos. Alternativamente, o adulto é alguém capaz de superar a onipotência infantil, de acordo com a qual o mundo (e as pessoas nele) estaria aí a nosso inteiro serviço, pronto a satisfazer todas as nossas necessidades e a minimizar todas as nossas frustrações. O adulto seria, então, reflexo da quantidade de frustrações que, em vez de levá-lo ao desalento, o confrontaram com suas próprias limitações e o fizeram crescer.
Negação geracional. Cada uma das quatro visões anteriores sobre o que é ser adulto vem sendo fortemente subvertida na atualidade, e aqui novamente a tese de Michael  Bywater precisa ser retomada. De fato, o sintoma social de infantilização do adulto mostra que existe hoje, em grande parte de nossas sociedades “civilizadas”, uma espécie de negação geracional: os pais, os adultos, enfim as figuras de autoridade (portanto, pessoas “crescidas”), estão abdicando de seu papel. Mas por que, afinal, essa negação ao amadurecimento? 
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Gosto mais da segunda, estamos presos na Matrix porque imbecilizamos. Nossa estupidificação é patente, viramos alvo fácil da engenharia social.
Da minha parte ando buscando Morpheus e a pílula vermelha.
As vezes isso vem em forma de um bom livro, embora dure pouco...

Mas no mais das vezes não há saida fácil, e me pego revendo o Mau... sua gargalhada fatal...
Sem culpa! Imune a Ana Maria, imune ao Face.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

AQUI É GALO!!!

Kalil filho dedicou o título ao pai, presidente do lendário time de 80 a 85 que vi jogar quando criança, com Reinaldo, Cerezo, pra falar pouco.
Eu dedico ao meu, que me fez irremediavelmente atleticano! 
Hoje eu e meus filhos choramos por meu pai, choramos pelo Galo... Campeão da Libertadores de 2013.