segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Lista Branca

Após meu arremedo frustrado em tornar-me um matemático, isso lá pelos anos 1980, tomei ainda mais gosto pelo triunvirato 'hipótese-tese-demonstração'. Ainda que não tivesse competência para seguir, ou talvez por isso mesmo, passei a gostar sobremaneira de teoremas, provas, demonstrações. 
Dai minha compulsão em entender, pensar, criticar, inferir antes de concluir alguma coisa. E caso provem o contrário, mais que feliz em rever minha posição. Já assimilei bem a regra socrática: aceito primeiro a própria ignorância.

Portanto, caso algum "iluminado" lance listas negras e comporte-se como inquisidor tirando de você o fardo da leitura e análise que deveria ser só seu, e pior, você ainda concorde servilmente... bem, você pode "estar" um militonto do xadrez político, inocente útil da engenharia social ou é definitivamente um picareta em busca de sinecuras.
Para os dois primeiros casos há cura e sugiro a expansão do espectro da leitura. Desconfiar já é um bom começo. Quando alguém recomendar que algo não deva ser lido, visto, ouvido, é a deixa... faça rigorosamente o contrário. O autor está na lista negra?, passe a ler e preste ainda mais atenção em busca do porquê da proibição. Na seara do pensar, é proibido proibir (ainda que a frase soe mais como uma contradição lógica. Talvez um oxímoro e ai me salvo do vexame... Sei lá. Não importa).
Para o último... bom, não sei se há esperança. Afinal, Maluf, Sarney, Collor continuam ai a indicar não haver mesmo limite para o fisiologismo e picaretagem deslavadas.

Mas se até a leitura de Mein Kampf é útil caso queiramos combater efetivamente neonazistas refratários, dissequemos sem dó todas as listas negras.
Ideias devem ser contestadas com ideias, não com fogueiras, expurgos, gulags, paredões. Listas são coisa de autoritários... ou de seitas obscuras.

Uma muito boa do Magnoli
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/demetriomagnoli/2014/09/1511975-fogueiras-da-razao.shtml

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Imagem: www.taringa.net

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Homem simples


Relatei a um amigo o niilismo político que me abatera e afastava de mim esse cálice do desejo voluntário por sessões de sadomasoquismo na TV Câmara/Senado, autoimolações em nome de causas no Face (pela mais absoluta falta delas), etc. etc. etc.

Se assistira ao debate???
Precisava responder???

Eis que chego em casa e revejo o Mainardi num artigo na Folha.

Concluo envaidecido: sou também um homem simples...
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/182616-sou-marina-ate-a-posse.shtml
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Imagem: Leonardo da Vinciwww.girafamania.com.br

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Caleidoscópio


Não vi coisas que vocês nunca acreditariam. Nem naves de ataque em chamas perto da borda de Orion, nem a luz do farol cintilar no escuro na Comporta Tannhauser. 

Esses momentos perdidos no tempo como lágrimas na chuva pertenceram a Roy, o replicante que em seu momento derradeiro poupou seu algoz e caçador, Deckard, personagem protagonizado por Harrison Ford em Blade Runner, de 1982. 
O filme foi mal nas bilheterias mas virou um clássico cult, o que faz todo o sentido.

No limiar do fim Roy sabia exatamente o valor da vida, e poupou Deckard dando-lhe a chance que dele fora tirada... seguir vivendo.

Vi coisas... terras, gentes, lugares que nunca imaginei vislumbrar um dia. Não sei bem ao certo como tudo aconteceu, sei apenas que havia alguém ao meu lado a soprar-me a confiança, a petulância e coragem dos valentes. Também fui poupado, como Deckard em Blade Runner.
Não, não é muito... talvez quase nada. Mas dessas lembranças ainda pinço o dia em que me embrenhei em braçadas pelo Araçuaí, rio ardiloso depois das chuvas de Dezembro no Vale. Lembro também da fachada da casa do Zé da Toca e da "fonção" em Cachoeira à noite, para onde nos dirigimos depois da acolhida rápida em Santa Rita na casa do Zéa quem demos carona de Minas Novas no Maverick do Quilim naquele dia
E subitamente estou na Grand Place num feriado, tiro algumas fotos do carpete de flores cuidadosamente montado na praça para me perder logo depois em lembranças de Asakusa, Tóquio, e seu templo budista dedicado ao bodhisattva Kannon... um bodhisattva que personifica a caridade, caridade que o criador não teve para com Roy.

New Orleans e o beignet do Café Du Monde no French Corner, o Mississipi ao fundo a me lembrar o Araçuaí, da Toca, Cachoeira e a "fonção", a Grand Place, Asakusa, Kannon e a caridade. 
Chicago logo ali a provar que o mundo é mais que nossa perspectiva provinciana e xenófoba das coisas. New York e a neve intensa de Fevereiro ou as Ramblas em Barcelona e o Mercado La Boqueria, onde quis que o João Paixão estivesse presente, ele que é louco pelo Mercado Municipal de Belo Horizonte e por tantos outros mercados, em tantos outros lugares. 

Lembro então da última vez em que estive com meu velho no Mercado em Minas Novas. Minha mãe contou que em seu momento derradeiro, no limiar de entregar sua lucidez, ainda preocupou-se e perguntou a si mesmo: "o que eu vou fazer ?" num monólogo final.
De lá para o Sena, o Thames em London ou o Danúbio em Budapeste... O air racing no St. Stephen's Day e o mergulho dos monomotores na parte final do circuito deixando um rastro de fumaça debaixo da Chain Bridge, todos a me trazerem de novo o Araçuaí, o Mississipi, os beignets do Café Du Monde, a New Orleans do French Corner, Mardi Gras, o mercado e o carnaval em Minas Novas. O manneke pies, o d'Orsay na beira do Sena... a Mona Lisa, o Louvre. 

Luca, um italiano que conheci em Palo Alto e um link que me enviou do YouTube com um show ao vivo do PFM em 2010, o mesmo PFM do clássico Chocolate Kings que herdei sem querer do Tião. Dos chocolates que comprei na Filip Martin na Rue au Beurre próximo à Grand Place... e de novo Asakusa, o templo budista de Kannon e a caridade... caridade que Roy nem outros receberam. A Golden Gate ou um festival de verão em Viena. Mozart ou o PFM, os chocolates. O choro e a saudade do meu pai no Hotel no City Centre, a caridade de Kannon, a falta dela no criador de Roy.

A Catedral Saint-Bavon em Ghent em 2007, um dia perdido no tempo, um grito. A vela que acendi para meu irmão e outros que haviam partido.
A Igreja St. Nicholas perto da Filip Martin dos chocolates em 2014 onde rezei depois de tantos anos e pedi misericórdia... 
A Deus... Por meu pai... a meu pai... por todos nós.

"Saudade é o pior tormento..."

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Imagem: http://www.cameraviajante.com.br/caleidoscopio.html

sexta-feira, 25 de julho de 2014

E la nave va



Há críticas à hierarquia das necessidades de Maslow.
Exemplos:
(1) Em sua extensa revisão das pesquisas que são dependentes da teoria de Maslow, Wahba e Bridgewell[1] acharam pouca evidência desta hierarquia de necessidades, ou mesmo da existência de alguma hierarquia. [2]  

(2) O economista e filósofo chileno Manfred Max Neef tem argumentado que as necessidades humanas fundamentais são não-hierárquicas e são ontologicamente universais e invariáveis em sua natureza - parte da condição de ser humano. [2]

É fato... Talvez não haja mesmo hierarquia em direção à autorrealização. Pessoas podem estar realizadas ainda que não satisfeitas todas as necessidades na base da pirâmide. Regardless, o modelo é poderoso e permite inferências interessantes, caso o adotemos com a ressalva dos exemplos acima. Com efeito, inicio por Maslow a autoanálise premente, oxalá também fértil na gestação de explicação que me traga algum lenitivo. Afinal, creio em Victor Frankl e na "plenitude de sentido".

(...)

Presumo ter passado “incólume” pelas etapas hierarquicamente anteriores à Estima. Sinto-me pleno com relação a tais quesitos... at least for now.
No entanto, há quase dois anos patino no mesmo degrau e não alcanço o seguinte, acima.
Na verdade, como consequência, sinto-me longe da Realização Pessoal, embora isso somehow endosse Maslow e desminta alguns de seus detratores, já citados acima.
Adicionalmente, sofro também de uma espécie de cientificismo diletante, o que me torna um fã inveterado da causalidade.
Desconsidero por hora, no entanto (por mera ignorância e incompetência, diga-se de passagem), complicações filosóficas sobre determinismo ou livre-arbítrio, já que exteriores ao assunto que desejo explorar.

Buscando então causa(s) para minha frustração, olhando para trás no tempo, deparo-me com um evento, a ignição de minha tristeza e tento elucidar assim sua real causa e efeitos nefastos. Para tanto, talvez tenha que dar um salto pra dentro de mim e contar com o Dr Google como meu Virgílio.

Vem de minha infância um pavor obtuso do ridículo, da exposição. A despeito de minha mineirice(que talvez explicasse introversão mas não exatamente timidez), tem de haver outras causas.
O Dr Google me explica o seguinte :
Introversão(referência: https://www.psicologiamsn.com/2011/12/timidez-e-psicologia.html)
O conceito de introversão foi criado pelo psicólogo suíço C. G. Jung.
A psique, ou alma, tem desde a primeira infância duas atitudes possíveis: pode se voltar mais para o mundo interno, ou pode se voltar para o mundo externo. Com efeito, dois tipos de atitude (ou personalidade) afloram: o tipo introvertido e o tipo extrovertido.
A diferença entre timidez e introversão é que a segunda é uma atitude psíquica de introspecção, voltar-se para si mesmo. Ao invés da consciência olhar para fora, para o meio ambiente e para as outras pessoas, a psique prefere conhecer a si mesma, conhecer o seu próprio mundo de experiências internas. Mas isso não significa necessariamente timidez como veremos a seguir.


Fraca autoimagem. Isto é especialmente verdade para pessoas que sofreram experiências negativas de afronta e diminuição de si mesmas. Isso pode levar à crença negativa nas qualidades pessoais (não são interessantes ou dignas de admiração). E embora haja o esforço por equiparar-se às outras pessoas(padrão do grupo do qual faz(ou almeja fazer) parte), o resultado pode ser um sentimento pejorativo acerca de si mesmo afetando auto-estima e auto-confiança.
Preocupação consigo mesmo. Algumas pessoas, perto de outras pessoas, tornam-se extremamente sensíveis ao que estão fazendo, como se estivessem no centro do palco. Isso cria ansiedade e faz com que questionem cada movimento que executam. Fica-se com a atenção autocentrada, em particular sobre: “O que eu estou fazendo de errado?”. Isto pode causar uma espiral descendente de negatividade.

A timidez portanto desenvolve-se em torno de três componentes:
·         Excesso de autoconsciência (introversão).
·         Excesso de autoavaliação negativa (fraca autoimagem).
·         Excessiva autopreocupação (preocupação consigo mesmo).


Nota-se então que a introversão é condição necessária mas não suficiente para a timidez, que tem adicionado o fator insegurança à equação.


Depois desse exercício, tento explicar a mim mesmo as causas e efeitos do famigerado evento rotor de minha depressão prolongada:
Ao ser exposto e confrontado pela falta de conhecimento num determinado tópico, reagi com agressividade, acuado pelo pavor da exposição e abastecido pelo receio de afundar-me em ‘fraca autoimagem’. A partir dali, agora também perseguido pela ‘preocupação comigo mesmo’, tornei-me - como numa professia autorrealizável - tudo o que mais tentava evitar. Claro, tudo isso insuflado ainda mais pela agressividade proporcional do outro lado. A depressão seguiu-se como consequência inevitável.
Indo ainda mais longe, parece-me imediata a conclusão de que sou introvertido e que sofri das causas da timidez na tenra infância (não procuro culpados, though. Já passei dessa fase). Portanto, os componentes e condições estavam todos lá e tornei-me tímido.
Lutei contra isso e atingi, na maturidade, nível aceitável de autoconfiança - basicamente o antídoto para o introvertido vencer a timidez.
Constato porém que depois de anos isso talvez tenha se cristalizado e passei a sofrer de um efeito colateral indesejado: excesso de confiança. A arrogância que adveio sem dúvida potencializou ainda mais a sensação de autoconhecimento, que provou-se falsa, além de maquiar a timidez latente.


Diante de tal confusão, minha autoimagem ruiu. Meu castelo era de areia, no final das contas. Não me conhecia o suficiente nem tive a humildade de aceitar minhas falhas, por excesso de confiança.
O que veio depois, além da depressão, foi o recrudescimento da timidez e seus efeitos deletérios mais uma profunda falta de motivação.


Ao escrever essas linhas, me embrenho na tentativa de purgar o mal com palavras e retomar meu caminho. É imperativo prosseguir... não só como garantia da subsistência mas também na busca de um sentido maior, que descobri vacilava ou carecia de maior justificativa.
É claro que externamente sempre haverão culpados, que de certa forma podem iniciar seu processo de autoimplosão. Porém devemos também agradecê-los, ainda que desaprovemos frontalmente seus métodos, bullying e assédio ofensivo. Isto porque promovem à socapa um aprendizado e autoconhecimento que se bem digeridos tornar-se-ão estímulos a seu crescimento. Claro, caso você vença primeiro o trauma e humilhações do confronto e continue...
No meu caso, tal confrontação postou-me diante de minha incapacidade com figuras difíceis (e poderosas) e meu parco conhecimento de mim mesmo.

(...)

Conhece-te a ti mesmo ...
Na falta de um Oráculo de Delfos na vizinhança, levei meses para entender que necessitava olhar para dentro e me livrar da tentação comum de atribuir a responsabilidade a outrem. Ao quebrar a mão invisível que manipulava minha consciência, vi que criei à imagem e semelhança de um algoz externo minhas próprias amarras, e pior, alguém a quem atribuir a culpa e me eximir da inércia. Esse é um círculo vicioso da depressão.


Dito isso, paro de ruminar o acontecido e me livro da mágoa, porque como diria Chico, “apesar de você, amanhã há de ser outro dia...”.
Além do mais, continuo almejando a autorrealização e embora não consiga vislumbrar claramente o caminho para ela nesse momento, alguns indícios me apontam a direção e retomei a caminhada.
Não sei quando(se) vou alcançá-la... Mas tenho a certeza de que sempre estarei um passo mais próximo caso continue andando... Então ando... e ando... e ando...


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Figure: J. Finkelstein (translated to pt-BR by Felipe Sanches) - Based on http://en.wikipedia.org/wiki/Image:Maslow%27s_hierarchy_of_needs.svg
[1]  Wahba, A., & Bridgewell, L. (1976). Maslow reconsidered: A review of research on the need 
hierarchy theory. Organizational Behavior and Human Performance, 15, 212-240. 
[2] Excerpts from Wikipédia

E la nave va (em Portugal intitulado O Navio) é um filme italiano de 1983 dirigido por Federico Fellini.

sábado, 12 de julho de 2014

Loa

Futebol e política se fundiram na ruindade.

Eis que flanando (tecnicamente morto) em meu limbo, sou salvo pelo Vander.
Ave Lee!


sexta-feira, 4 de julho de 2014

"Não li... e não gostei"

Da Dialética Erística de Schopenhauer aprendi o seguinte:

'Argumentum ad hominem (latim, argumento contra a pessoa) é uma falácia identificada quando alguém procura negar uma proposição com uma crítica ao seu autor e não ao seu conteúdo. Um argumentum ad hominem é uma forte arma retórica, apesar de não possuir bases lógicas.

A falácia ocorre pois conclui sobre o valor da proposição sem examinar seu conteúdo, o que é absurdo.

O argumento contra a pessoa é uma das falácias caracterizadas pelo elemento da irrelevância, por concluir sobre o valor de uma proposição através da introdução, dentro do contexto da discussão, de um elemento que não tem relevância para isso, que neste caso é um juízo sobre o autor da proposição.

Pode ser agrupado também entre as falácias que usam o estratagema do desvio de atenção, ao levar o foco da discussão para um elemento externo a ela, que são as considerações pessoais sobre o autor da proposição.' [1]

Trata-se inequivocamente de uma falácia.
Eu, que a contragosto, claro, leio o Boff, o Quartim, o Safatle e uns tantos outros, confronto seus pontos de vista contra a lógica, a história, a filosofia, o Google, enfim…

Esse Google é mesmo de matar, não há mesmo chance do engodo caso queira pesquisar, estudar e dispender o  tempo necessário confrontando fontes e fatos.

Portanto, a priori, não mais invalido um argumento de antemão pelo atalho fácil do descredenciando da fonte. A menos que venha de um Delúbio ou do Zé… Ai também já seria demais. E embora escravos da ideologia (e não da lógica) sejam mesmo suspeitos compulsórios de seus pensamentos e opiniões - já que reféns de um silogismo às avessas onde a conclusão pré-fabricada (alinhada a seus interesses ideológicos) determina as premissas adequadas para justificá-la, e não o contrário -, ainda mantenho a boa fé inicial na leitura. Nunca se sabe... em meio ao lodaçal pode-se trombar com um diamante. Mas infelizmente, no mais das vezes só dou mesmo é com os burros n’água.


Todavia, ser confrontado sem ser compreendido, e mais, taxado de manipulado tendo como argumento de autoridade a falácia ad hominem no descredenciando de autores citados é mero jogo baixo. Não há possibilidade de debate produtivo quando toda sorte de estratagema erística pauta a discussão, ao invés da lógica.
É impossível ser compreendido caso o leitor simplesmente NÃO leia o que você escreveu. Se a partir de um prejulgamento ou dedução apressada o oponente discorra sobre o que ele ACHA que você escreveu (ou escreveria) com a prepotência de um vidente que antecipa seu pensamento antes mesmo do intróito, remido ainda do fardo maior de ser cuidadoso e averiguar fontes, conceitos e fatos, não estamos mais que num hospício, onde a despeito do barulho, o debate é inócuo e a própria voz não lhe parecerá mais que um grunhido ininteligível.
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Fonte: [1] Wikipédia

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Notinhas Cínicas

A maioria de nós persegue desesperadamente justificativas e traços que nos tornem diferentes dos outros, únicos. É uma espécie de compulsão.
Sentimo-nos beijados pela providência como se Deus tivesse escolhido entre as mais de sete bilhões de pessoas do mundo você, sim, você mesmo, com toda a sua falta de graça, propósito, talento, realizações. Afinal, os desígnios de Deus são inescrutáveis, você pontuaria ao final.

Isso é absurdamente comum. Todos os dias vemos depoimentos de inebriados por orgulho ou vaidade catapultando sua própria importância à estratosfera, como que pudéssemos esperar, a partir dali, uma mudança certa no curso da história como consequência do resto de sua existência; Ou tolices vindas de celebridades - ainda mais comum - adoecidas pela fama e exposição, mesmo que sua maior contribuição tenha sido o Xou Da Xuxa, a supressão do plural na linguagem coloquial ou o chicote da Tiazinha.
Na maioria das vezes nada acontece... ou acontecerá por causa disso e o mundo permanecerá do jeito que é e seguirá seu curso natural, por razões óbvias. Mas quase todo mundo quer ser o novo Gandhi, ou Churchill, ou Che, ou Mandela, ou Lenin, fazer a diferença. Uns tem isso em maior grau, outros em menor.

(...)

A autocrítica necessária e o senso das proporções é o que me separa, por exemplo, de Wagner ou de Zé Camargos. Definitivamente não comporei uma Cavalgada das Valquírias nem terei o talento comercial que não adquiri até hoje, aos 47.
Mas autocrítica e senso das proporções parece luxo que não existe mais hoje em dia, tempo dos avatares. Todo mundo é sensível demais, justo demais, altruísta demais, culto demais... Não há feiura nem burrice, só perfeição, ainda que veleidade mais irreal que o socialismo inevitável.

Miseravelmente, a preparação e o conhecimento desses falsos diferentes costuma ser inversamente proporcional à sua megalomania e egolatria. Que o diga Kanye West, ou Lula.

Para muitos de nós, cuja existência está circunscrita ao nosso comezinho jeito de ser, a saída é broadcast nossas causas, lutas e mais o diabo que o parta nas redes. Mesmo que nossa compreensão acerca do que falamos não consiga nem mesmo atravessar a rua. Quem se importa? Uma imagem vale mais que mil ações... da Petrobras. E quem lê não sabe patavina mesmo?!?! e não tá nem ai. É um circo de horrores: avatares celebrando sua dignidade, altruísmo, abnegação, cultura e tudo o mais que efetivamente não têm nem os diferencia de qualquer outro idiota, como eu. Fakes por tras de um nome e uma foto no Face. Afinal é tudo virtual mesmo, fictício, incluindo ai as qualidades das quais se gabam incessantemente. É a chance de construir sua autoimagem ideal.
Por outro lado permite que pessoas não tenham de enfrentar a dura realidade do espelho, deparar com suas inexpressivas e inúteis existências. Se lá atrás acharam-se os escolhidos, diferentes tal como Jobs ou Einstein, Paul McCartney ou Schopenhauer... têm a obrigação agora de provar a que vieram...
E dá-lhe besteira.

(...)

A soberba, sétimo pecado capital, é o preferido do capeta, pelo menos para Al Pacino em o Advogado do Diabo.
Roger Scruton já teorizou como sonhadores inescrupulosos desconsideram a natureza humana para vociferar que podem mudar o mundo. Estabelecer um objetivo nobre desconsiderando irresponsavelmente o choque entre epifania e realidade ou os efeitos colaterais de sua execução é nada mais que demagogia ideológica. A história do século passado nos mostra que via de regra essa obsessão sempre termina em cerceamento das liberdades e morticínio.

(...)

Alex Fleming e a penicilina mudaram o mundo. O computador e a Internet mudaram o mundo, tanto quanto os foguetes V-2. Gutenberg mudou o mundo. Henry Ford mudou o mundo.

Eu cá sou infinitamente mais modesto. Tento acreditar apenas ser um canalha a menos na face da terra. Servir minha família já é a missão da minha vida e considero-a tão nobre quanto o Teorema de Pitágoras. Afinal, sei que Pitágoras não sou e entre o teorema e os meus, adeus matemática. É bom ter ciência de sua insignificância.

(...)

[O cinismo foi uma corrente filosófica fundada por um discípulo de Sócrates chamado Antístenes, cujo maior nome foi Diógenes de Sínope, por volta de 400 a.C., que pregava essencialmente o desapego aos bens materiais e externos. O termo passou à posteridade como caraterização pejorativa de pessoas sem pudor, indiferentes ao sofrimento alheio (que em nada se assemelha a origem filosófica da palavra).
Esta atitude era parte de uma procura da independência pessoal. Alguns foram longe demais, rejeitando mesmo as decências básicas. Para poderem manter a compostura face à adversidade, reduziam as suas necessidades ao mínimo para garantir a sua autossuficiência. Mais do que uma teoria, era um modo de vida.1 Para os Cínicos, a vida virtuosa consiste na independência, obtida através do domínio de desejos e necessidades, para encorajar as pessoas a renunciarem aos desejos criados pela civilização e pelas convenções. Os cínicos empreenderam uma cruzada de escárnio anti-social, na esperança de mostrar, pelo seu próprio exemplo, as frivolidades da vida social.2 ]

Queria mesmo era ver os avatares realizando seu palavrório, como Diógenes nas ruas de Atenas. 
Menos imagem e mais atitude. 
Menos Internet e mais filósofos em barris pela rua.
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Figura: Diógenes, de John William Waterhouse

Texto entre colchetes[ ] acima retirado da Wikipédia com as referências abaixo:
  1. Ir para cimaDicionário de Filosofia coordenado por Thomas Mautner. Editora 70, 2010
  2. Ir para cimaSimon Blackburn, Dicionário de Filosofia. Gradiva, 1997