Rapaz, de twittismo entendo nada não. Menos ainda de redes sociais, afinal, sou apenas um caipira pernóstico, daqueles que gostam de pensar difícil ou fazem de um tudo para parecer que é assim, ainda que provincianamente - com aquela discrição sepulcral que distingue derradeiramente os mineiros dos baianos. Escondo-me em "complicações" calculadas para afastar abelhudos e a turba insana que fareja sangue fresco à distância com seus faróis politicamente corretos.
Mas mentiria se dissesse que não quero ser lido, isso é bobagem. Só não pago o preço e nem transgrido algumas normas tácitas inventadas por mim mesmo, pautadas por timidez e meu orgulho, talvez, mas das quais não abro mão.
Ai, caso queira realmente ler, é opção só sua, pois terá de realizar o esforço de navegar e me achar na Net. Não mando mails, não posto no face ou no twitter.
Eu sei, as redes são a nova arma da mobilização e do engajamento. Vide a primavera árabe, antes o quebra-quebra em Londres, mas veja também as brigas entre torcidas organizadas agendadas luxuosamente nas redes. Nessas primaveras não há flores. Veja também a invasão de privacidade, o moedor de reputações cujo rotor são vídeos que não deveriam ser públicos ou simplesmente calúnias devidamente plantadas como estratagema de engenharia social de fim escuso e quase sempre duvidoso. Nada de legislação na Net, ainda.
É o faroeste moderno onde avatares sacam suas armas em duelos na "rua principal" e abatem displicentemente qualquer transeunte mais incauto.
Só que os cowboys aqui costumam não ter a menor graça.
___________________________________
Imagem: do filme brasileiro 'Rogo a Deus e Mando Bala' de 1972 escrito e dirigido por Oswaldo de Oliveira.
Elucubrações de um caminhante mineiro em terras desconhecidas (e conhecidas também). Cai dentro e descobre...
domingo, 16 de setembro de 2012
sábado, 15 de setembro de 2012
Tito, A Queda, a esquerda, o sarcasmo e o lado direito do cérebro
Mino Carta não gosta do Mainardi. PHA não gosta do Mainardi. Lula não gosta do Mainardi (muy certamente Marilena, Safatle, Quartim também não).... Basta!!! Razão suficiente para comprar seu último livro. Afinal, MC, PHA, squid e uns tantos são uma espécie de filtro ao avesso, um controle de qualidade com o sinal trocado: o que eles disserem, faço exatamente o contrário. Batata! Nunca falha.
A Queda - As memórias de um pai em 424 passos - é bárbaro. Comprei o livro na hora do almoço e o terminei à noite. De Ezra Pound a Dante Alighieri passando por Menguele, Christy Brown, Vertigo, Proust, transformers, Neil Young, Giacomo Leopardi, tantos, distantes, separados, juntos, cambaleantes como os passos de Tito. Demandou-me um bom tempo pesquisando um e todos.
Esse pra mim é sem dúvida o grande legado de um bom livro, você sair melhor.
Evidente que estou na contramão do politicamente correto imposto pelas minorias majoritárias onde menções a Shakespeare, à Divina Comédia e até a Monteiro Lobato podem soar como preconceito, racismo ou como outra palavra-gatilho psicoticamente socializada hoje em dia. No mínimo e melhor das hipóteses me chamariam de pernóstico burguês conservador, reacionário e me mandariam ir ver a meninada batendo lata no Morro do Cantagalo (precisava ser lata? Não dava pra ser violão sete cordas, cavaquinho, pandeiro e cuíca??? Desde Noel, Cartola, Nelson Cavaquinho morro e favela tão mais pra samba pô!!!).
Aliás, essa turma nunca terá uma compreensão exata de alguns autores, falta-lhes a integridade do hemisfério direito do cérebro responsável por interpretar o sarcasmo e a ironia.
Isso mesmo, provavelmente áreas destruídas por anos de disseminação ideológica compulsiva, pouca leitura ou leitura patrulhada, dirigida, militância cega... É muita carta capital, conversa afinada...
Mas deixe-me esclarecer, do 'HowStuffWorks' trago trechos do artigo abaixo:
______________________________________________
O Sarcasmo na literatura [1]
Embora não seja possível identificar a primeira vez em que foi utilizado, o sarcasmo, sempre foi importante na literatura (juntamente com a sátira) como uma espécie de humor ou simplesmente uma maneira de expressão. Muitos estudiosos da Bíblia mostram exemplos de sarcasmo nas escrituras sagradas. Eclesiastes 11:9 diz: "alegra-te, mancebo, na tua mocidade, e anime-te o teu coração nos dias da tua mocidade, anda pelos caminhos do teu coração e pela vista dos teus olhos. Sabe, porém, que por todas estas coisas Deus te trará a juízo" (Nova Versão Padrão Americana). Muitos estudiosos bíblicos interpretam isso como "se quer ser julgado por Deus, faça o que quiser".
William Shakespeare é conhecido pelo seu uso de sarcasmo. Na peça "Júlio César", o personagem de Marco Antônio faz um discurso no funeral de César que começa da seguinte maneira: "amigos, romanos, cidadãos dêem-me seus ouvidos". Nesse discurso, Marco Antônio repete a frase "homem honrado" diversas vezes, referindo-se a Brutus, cujos atos (assassinato de César) foram tudo menos honrados. Tal repetição causa o efeito de inverter completamente o significado literal da frase.
Quando o sarcasmo é escrito em vez de falado, o leitor deve ser capaz de identificá-lo no contexto, já que não há entonação de voz. Essa dificuldade pode ser a origem da suposição, "o sarcasmo é a pior forma de sagacidade, mas a melhor forma de inteligência".
_______________________________________________
Mas é da BBC News que trago a pesquisa que menciona as áreas do cerébro responsáveis pela interpretação do sarcasmo. E adivinhem? Estão do lado direito.
Por isso todos eles ainda repetem como papagaios "o Mainardi só escreve por dinheiro" (o Mino não. O PHA também não), tudo consequência de um artigo dele carregado da mordacidade que alguns cérebros danificados não podem ou querem entender. Sempre foi assim. Por isso mesmo nada de Voltaire, Orwell, Schopenhauer... Dá indigestão... mental.
Damage to any of three different areas could render individuals unable to understand sarcastic comments.
The Israeli team from Haifa University told Neuropsychology how their findings might help to explain autism features.
Autistic children can have problems interpreting sarcasm as well as other social cues such as emotions.
This same skill is sometimes lost in people with brain damage, suggesting similar brain regions may be involved in autism.
Brain scan studies of autistic children have shown that they have different activity in the frontal lobe to other children.
Dr Simone Shamay-Tsoory and colleagues studied 25 people with prefrontal lobe damage, 16 with damage to the posterior lobe of the brain and 17 healthy volunteers.
They played the study participants tape-recorded stories, some sarcastic and some neutral.
An example of sarcasm was "Joe came to work, and instead of beginning to work, he sat down to rest. His boss noticed and said to Joe 'don't work too hard.'"
In fact, what Joe's boss actually meant by his comment was "you are a slacker".
In the neutral version Joe came to work and began work immediately. His boss made the same "don't work too hard" comment, but this time, he actually meant that Joe was a hard worker.
The volunteers who had damage to their prefrontal lobes were unable to correctly interpret the sarcastic story, while all of the other participants could.
Anatomy
Dr Shamay-Tsoory said this fitted with what is already known about the anatomy of the brain.
She said language areas on the left hand side of the brain interpret the literal meaning of words and the frontal lobes and the right side of the brain understand the social and emotional context.
An area called the right ventromedial prefrontal cortex then integrates the literal meaning with the social/emotional context, which will reveal any sarcasm.
"A lesion in each region in the network can impair sarcasm, because if someone has a problem understanding a social situation, he or she may fail to understand the literal language," she said.
A spokeswoman from the National Autistic Society said: "The causes of autism are still being investigated.
"Many experts believe that the pattern of behaviour from which autism is diagnosed may not result from a single cause.
"There is strong evidence to suggest that autism can be caused by a variety of physical factors, all of which affect brain development."
______________________________
Fontes:
[1] - http://pessoas.hsw.uol.com.br/sarcasmo2.htm
[2] - http://www.hsw.uol.com.br/framed.htm?parent=sarcasmo.htm&url=http://news.bbc.co.uk/2/hi/health/4566319.stm
A Queda - As memórias de um pai em 424 passos - é bárbaro. Comprei o livro na hora do almoço e o terminei à noite. De Ezra Pound a Dante Alighieri passando por Menguele, Christy Brown, Vertigo, Proust, transformers, Neil Young, Giacomo Leopardi, tantos, distantes, separados, juntos, cambaleantes como os passos de Tito. Demandou-me um bom tempo pesquisando um e todos.
Esse pra mim é sem dúvida o grande legado de um bom livro, você sair melhor.
Evidente que estou na contramão do politicamente correto imposto pelas minorias majoritárias onde menções a Shakespeare, à Divina Comédia e até a Monteiro Lobato podem soar como preconceito, racismo ou como outra palavra-gatilho psicoticamente socializada hoje em dia. No mínimo e melhor das hipóteses me chamariam de pernóstico burguês conservador, reacionário e me mandariam ir ver a meninada batendo lata no Morro do Cantagalo (precisava ser lata? Não dava pra ser violão sete cordas, cavaquinho, pandeiro e cuíca??? Desde Noel, Cartola, Nelson Cavaquinho morro e favela tão mais pra samba pô!!!).
Aliás, essa turma nunca terá uma compreensão exata de alguns autores, falta-lhes a integridade do hemisfério direito do cérebro responsável por interpretar o sarcasmo e a ironia.
Isso mesmo, provavelmente áreas destruídas por anos de disseminação ideológica compulsiva, pouca leitura ou leitura patrulhada, dirigida, militância cega... É muita carta capital, conversa afinada...
Mas deixe-me esclarecer, do 'HowStuffWorks' trago trechos do artigo abaixo:
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O Sarcasmo na literatura [1]
Embora não seja possível identificar a primeira vez em que foi utilizado, o sarcasmo, sempre foi importante na literatura (juntamente com a sátira) como uma espécie de humor ou simplesmente uma maneira de expressão. Muitos estudiosos da Bíblia mostram exemplos de sarcasmo nas escrituras sagradas. Eclesiastes 11:9 diz: "alegra-te, mancebo, na tua mocidade, e anime-te o teu coração nos dias da tua mocidade, anda pelos caminhos do teu coração e pela vista dos teus olhos. Sabe, porém, que por todas estas coisas Deus te trará a juízo" (Nova Versão Padrão Americana). Muitos estudiosos bíblicos interpretam isso como "se quer ser julgado por Deus, faça o que quiser".
William Shakespeare é conhecido pelo seu uso de sarcasmo. Na peça "Júlio César", o personagem de Marco Antônio faz um discurso no funeral de César que começa da seguinte maneira: "amigos, romanos, cidadãos dêem-me seus ouvidos". Nesse discurso, Marco Antônio repete a frase "homem honrado" diversas vezes, referindo-se a Brutus, cujos atos (assassinato de César) foram tudo menos honrados. Tal repetição causa o efeito de inverter completamente o significado literal da frase.
Quando o sarcasmo é escrito em vez de falado, o leitor deve ser capaz de identificá-lo no contexto, já que não há entonação de voz. Essa dificuldade pode ser a origem da suposição, "o sarcasmo é a pior forma de sagacidade, mas a melhor forma de inteligência".
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Mas é da BBC News que trago a pesquisa que menciona as áreas do cerébro responsáveis pela interpretação do sarcasmo. E adivinhem? Estão do lado direito.
Por isso todos eles ainda repetem como papagaios "o Mainardi só escreve por dinheiro" (o Mino não. O PHA também não), tudo consequência de um artigo dele carregado da mordacidade que alguns cérebros danificados não podem ou querem entender. Sempre foi assim. Por isso mesmo nada de Voltaire, Orwell, Schopenhauer... Dá indigestão... mental.
The scientists pinpointed three important brain areas
|
Scientists say they have located the parts of the brain that comprehend sarcasm - honestly.
By comparing healthy people and those with damage to different parts of
the brain, they found the front of the brain was key to understanding
sarcasm.
Damage to any of three different areas could render individuals unable to understand sarcastic comments.
The Israeli team from Haifa University told Neuropsychology how their findings might help to explain autism features.
Autistic children can have problems interpreting sarcasm as well as other social cues such as emotions.
Researcher Dr Simone Shamay-Tsoory
|
Brain scan studies of autistic children have shown that they have different activity in the frontal lobe to other children.
Dr Simone Shamay-Tsoory and colleagues studied 25 people with prefrontal lobe damage, 16 with damage to the posterior lobe of the brain and 17 healthy volunteers.
They played the study participants tape-recorded stories, some sarcastic and some neutral.
An example of sarcasm was "Joe came to work, and instead of beginning to work, he sat down to rest. His boss noticed and said to Joe 'don't work too hard.'"
In fact, what Joe's boss actually meant by his comment was "you are a slacker".
In the neutral version Joe came to work and began work immediately. His boss made the same "don't work too hard" comment, but this time, he actually meant that Joe was a hard worker.
The volunteers who had damage to their prefrontal lobes were unable to correctly interpret the sarcastic story, while all of the other participants could.
Anatomy
Dr Shamay-Tsoory said this fitted with what is already known about the anatomy of the brain.
She said language areas on the left hand side of the brain interpret the literal meaning of words and the frontal lobes and the right side of the brain understand the social and emotional context.
An area called the right ventromedial prefrontal cortex then integrates the literal meaning with the social/emotional context, which will reveal any sarcasm.
"A lesion in each region in the network can impair sarcasm, because if someone has a problem understanding a social situation, he or she may fail to understand the literal language," she said.
A spokeswoman from the National Autistic Society said: "The causes of autism are still being investigated.
"Many experts believe that the pattern of behaviour from which autism is diagnosed may not result from a single cause.
"There is strong evidence to suggest that autism can be caused by a variety of physical factors, all of which affect brain development."
Fontes:
[1] - http://pessoas.hsw.uol.com.br/sarcasmo2.htm
[2] - http://www.hsw.uol.com.br/framed.htm?parent=sarcasmo.htm&url=http://news.bbc.co.uk/2/hi/health/4566319.stm
Além do espelho
Quando eu olho meu olho além do espelho
Tem alguém que me olha e não sou eu
Vive dentro do meu olho vermelho
É o olhar do meu pai que já morreu
O meu olho parece um aparelho
De quem sempre me olhou e protegeu
Assim como meu olho dá conselho
Quando eu olho o olhar de um filho meu
A vida é mesmo uma missão
A morte é uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
Sempre que um filho meu me dá um beijo
Sei que o amor do meu pai não se perdeu
Só de olhar seu olhar eu sei seu desejo
Assim como meu pai sabia o meu
Mas meu pai foi-se embora num cortejo
E no espelho eu chorei porque doeu
Só que vendo meu filho agora eu vejo
Que ele é o espelho do espelho que sou eu
A vida é mesmo uma missão
A morte é uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
Toda imagem no espelho refletida
Tem mil faces que o tempo ali prendeu
Todos tem qualquer coisa repetida
Um pedaço de quem nos concebeu
A missão do meu pai já foi cumprida
Vou cumprir a missão que Deus me deu
Se o meu pai foi espelho em minha vida
Quero ser pro meu filho espelho seu
A vida é mesmo uma missão
A morte é uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
Meu medo maior é o espelho se quebrar
Tem alguém que me olha e não sou eu
Vive dentro do meu olho vermelho
É o olhar do meu pai que já morreu
O meu olho parece um aparelho
De quem sempre me olhou e protegeu
Assim como meu olho dá conselho
Quando eu olho o olhar de um filho meu
A vida é mesmo uma missão
A morte é uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
Sempre que um filho meu me dá um beijo
Sei que o amor do meu pai não se perdeu
Só de olhar seu olhar eu sei seu desejo
Assim como meu pai sabia o meu
Mas meu pai foi-se embora num cortejo
E no espelho eu chorei porque doeu
Só que vendo meu filho agora eu vejo
Que ele é o espelho do espelho que sou eu
A vida é mesmo uma missão
A morte é uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
Toda imagem no espelho refletida
Tem mil faces que o tempo ali prendeu
Todos tem qualquer coisa repetida
Um pedaço de quem nos concebeu
A missão do meu pai já foi cumprida
Vou cumprir a missão que Deus me deu
Se o meu pai foi espelho em minha vida
Quero ser pro meu filho espelho seu
A vida é mesmo uma missão
A morte é uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
Meu medo maior é o espelho se quebrar
(1)
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(1) Além do espelho - João Nogueira
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Agosto
Tivemos momentos ruins, meu velho e eu.
Teve época em que fomos o antípoda um do outro, tudo porque no fundo éramos absolutamente iguais. Ironia.
Um evento, o divisor de águas, e nunca mais falamos de nosso passado mesclado de equívocos, de ambos os lados. Miramos o futuro e vivemos o presente... até o fim!
Não cabe aqui remoer memórias, mas numa noite na chácara de Santa Terezinha - o Recanto Motinha - contei a ele o momento que vivia.
Ele sempre estivera certo, a juventude, os arroubos passam, caso de fato você amadureça.
Ele apenas balançou a cabeça positivamente.
Embora alguns escolham não amadurecer, como o Oskar de Günter Grass em O Tambor, prefiro o contrário. Entre o Tambor de Günter ou Abril da Calcanhoto, fico com a segunda opção.
"Sinto o abraço do tempo, apertar
E redesenhar minhas escolhas
Logo eu, que queria mudar tudo
Me vejo cumprindo ciclos, gostar mais de hoje
Gostar disso" (1)
_________________
(1) Abril, Adriana Calcanhoto
Teve época em que fomos o antípoda um do outro, tudo porque no fundo éramos absolutamente iguais. Ironia.
Um evento, o divisor de águas, e nunca mais falamos de nosso passado mesclado de equívocos, de ambos os lados. Miramos o futuro e vivemos o presente... até o fim!
Não cabe aqui remoer memórias, mas numa noite na chácara de Santa Terezinha - o Recanto Motinha - contei a ele o momento que vivia.
Ele sempre estivera certo, a juventude, os arroubos passam, caso de fato você amadureça.
Ele apenas balançou a cabeça positivamente.
Embora alguns escolham não amadurecer, como o Oskar de Günter Grass em O Tambor, prefiro o contrário. Entre o Tambor de Günter ou Abril da Calcanhoto, fico com a segunda opção.
"Sinto o abraço do tempo, apertar
E redesenhar minhas escolhas
Logo eu, que queria mudar tudo
Me vejo cumprindo ciclos, gostar mais de hoje
Gostar disso" (1)
(1)
(1) Abril, Adriana Calcanhoto
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
ZéMota
Tive muitos ídolos. Tenho alguns ainda...
Toninho, cuja harmonia transcendeu o comum e dividiu águas. Russell, Voltaire pelo sarcasmo e argúcias desconcertantes. Benito Barreto e Guimarães por capela dos homens e grandes sertões. Reinaldo pelos gols no Cruzeiro... e no resto. Millôr, Francis, Beto, Tusta, tantos.
Uns escritores, outros músicos ou filósofos, jornalistas, jogadores de futebol... amigos, gente desconhecida, qualquer um. Nenhum político, todavia, e é bom que se diga.
Mas idolatro e idolatrei mesmo foi um motorista de caminhão do Vale do Jequitinhonha, daqueles que cortavam a estrada velha e depois a Definitiva num Chevrolet caixa seca, na lama, sem freio, carregado de porcos, ou o diabo. Cruzou o Brasil saindo de Minas Novas, lugar ermo (pelo menos naquela época). Seu orgulho maior era apenas dirigir como ninguém, como se tal virtude fosse mesmo o supra sumo da vida. Era pra ele, e era pra mim por extensão direta e laço de respeito e admiração. Contou-me histórias, casos de uma terra que adotei minha através das memórias dele, como se tivesse nascido e crescido lá desde sempre.
Assim Bulé, Biga, João 100%, Tião de Angelino, Zé Camargos... assim o Bongô, a Pedra da Onça, o Beco do Mota, Diamantina. Assim as bolas de fogo, inúmeras, incontáveis...
Para a inteligência vale o princípio da abundância, que diferentemente do pressuposto da escassez na economia, prescreve que quanto mais falta, mais tem-se a impressão de que sobra. Simplificando, quanto menos se enxerga, mais arrogante, mais estupidamente decidido o estulto arrota o bom senso e agudeza que derradeiramente não tem.
Chico Doido uma vez, numa viagem de Minas Novas a Belo Horizonte, fingiu-se o tolo da história, fazendo feliz o verdadeiro besta da viagem. A estupidez tem mesmo essa característica, não entende a própria mediocridade que por cegueira projeta nos outros. O esperto era Chico. Sempre foi.
Assim cansei de ver idiotas projetando sua estupidez naquele motorista, que ria internamente da cegueira alheia. E seguia, como sempre fez.
Com alguns me indignei, com outros, simplesmente dei de ombros. Um deles disse uma vez que "quem enterra m... é gato", quando falava de um velório alheio.
Foi primeiro... cercado dos gatos a lhe cobrirem de terra... sua sina.
Sua cegueira poupou-lhe ao menos da constatação do óbvio, sua essência fétida.
A vida passou. Para aquele motorista até acabou, como também acabará para mim um dia.
Mas valeu a pena... sua alma não foi pequena.
Quanto a mim, conheci Kafka, Dostoievski, Rosa, Schopenhauer... Ouvi Bach, Toninho, Milton, Tião Contente. Vi mundo, do Japão à Hungria. Nadei no Bonsucesso e dormi bêbado no sobradão do Mário num carnaval. Acumulei lembranças.
De uma forma ou de outra, tudo graças a ele, seu legado em mim. E embora não tenha guardado posses ou dinheiro, continuo acreditando no princípio da abundância no que tange assuntos relacionados à inteligência. E diferente de Brás Cubas, tive filhos, plantei um jacarandá e ainda escreverei um livro.
Ainda vejo com certo descaso a ostentação das posses, da grana como condição inequívoca de sucesso.
Para estes, nunca a agonia de Joseph K, ou Raskólnikov, ou a epopéia sertaneja de Riobaldo Tatarana. Nunca saberão nada sobre o universo inflacionário ou a Turritopsis nutricula. Não conhecerão o bar do Cardoso, ou nadarão no Buriti.
Meu velho dizia com sinceridade desconcertante o que esses nunca poderão dizer:
"- Da morte não tenho medo. Meu medo é o Cardoso fechar as portas."
Da Vinci vaticinou que "a simplicidade é o último grau de sofisticação".
E eu continuo achando que aquele motorista de caminhão era mesmo um deus, o Da Vinci do Vale que me deu esse jeito de andar...
Só um "cabra homi" que de bônus ainda me permitiu um dos maiores deleites que tive na caminhada até aqui: ter andado a seu lado... ser seu filho.
Toninho, cuja harmonia transcendeu o comum e dividiu águas. Russell, Voltaire pelo sarcasmo e argúcias desconcertantes. Benito Barreto e Guimarães por capela dos homens e grandes sertões. Reinaldo pelos gols no Cruzeiro... e no resto. Millôr, Francis, Beto, Tusta, tantos.
Uns escritores, outros músicos ou filósofos, jornalistas, jogadores de futebol... amigos, gente desconhecida, qualquer um. Nenhum político, todavia, e é bom que se diga.
Mas idolatro e idolatrei mesmo foi um motorista de caminhão do Vale do Jequitinhonha, daqueles que cortavam a estrada velha e depois a Definitiva num Chevrolet caixa seca, na lama, sem freio, carregado de porcos, ou o diabo. Cruzou o Brasil saindo de Minas Novas, lugar ermo (pelo menos naquela época). Seu orgulho maior era apenas dirigir como ninguém, como se tal virtude fosse mesmo o supra sumo da vida. Era pra ele, e era pra mim por extensão direta e laço de respeito e admiração. Contou-me histórias, casos de uma terra que adotei minha através das memórias dele, como se tivesse nascido e crescido lá desde sempre.
Assim Bulé, Biga, João 100%, Tião de Angelino, Zé Camargos... assim o Bongô, a Pedra da Onça, o Beco do Mota, Diamantina. Assim as bolas de fogo, inúmeras, incontáveis...
Para a inteligência vale o princípio da abundância, que diferentemente do pressuposto da escassez na economia, prescreve que quanto mais falta, mais tem-se a impressão de que sobra. Simplificando, quanto menos se enxerga, mais arrogante, mais estupidamente decidido o estulto arrota o bom senso e agudeza que derradeiramente não tem.
Chico Doido uma vez, numa viagem de Minas Novas a Belo Horizonte, fingiu-se o tolo da história, fazendo feliz o verdadeiro besta da viagem. A estupidez tem mesmo essa característica, não entende a própria mediocridade que por cegueira projeta nos outros. O esperto era Chico. Sempre foi.
Assim cansei de ver idiotas projetando sua estupidez naquele motorista, que ria internamente da cegueira alheia. E seguia, como sempre fez.
Com alguns me indignei, com outros, simplesmente dei de ombros. Um deles disse uma vez que "quem enterra m... é gato", quando falava de um velório alheio.
Foi primeiro... cercado dos gatos a lhe cobrirem de terra... sua sina.
Sua cegueira poupou-lhe ao menos da constatação do óbvio, sua essência fétida.
A vida passou. Para aquele motorista até acabou, como também acabará para mim um dia.
Mas valeu a pena... sua alma não foi pequena.
Quanto a mim, conheci Kafka, Dostoievski, Rosa, Schopenhauer... Ouvi Bach, Toninho, Milton, Tião Contente. Vi mundo, do Japão à Hungria. Nadei no Bonsucesso e dormi bêbado no sobradão do Mário num carnaval. Acumulei lembranças.
De uma forma ou de outra, tudo graças a ele, seu legado em mim. E embora não tenha guardado posses ou dinheiro, continuo acreditando no princípio da abundância no que tange assuntos relacionados à inteligência. E diferente de Brás Cubas, tive filhos, plantei um jacarandá e ainda escreverei um livro.
Ainda vejo com certo descaso a ostentação das posses, da grana como condição inequívoca de sucesso.
Para estes, nunca a agonia de Joseph K, ou Raskólnikov, ou a epopéia sertaneja de Riobaldo Tatarana. Nunca saberão nada sobre o universo inflacionário ou a Turritopsis nutricula. Não conhecerão o bar do Cardoso, ou nadarão no Buriti.
Meu velho dizia com sinceridade desconcertante o que esses nunca poderão dizer:
"- Da morte não tenho medo. Meu medo é o Cardoso fechar as portas."
Da Vinci vaticinou que "a simplicidade é o último grau de sofisticação".
E eu continuo achando que aquele motorista de caminhão era mesmo um deus, o Da Vinci do Vale que me deu esse jeito de andar...
Só um "cabra homi" que de bônus ainda me permitiu um dos maiores deleites que tive na caminhada até aqui: ter andado a seu lado... ser seu filho.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
domingo, 29 de julho de 2012
Bolero
A dor repetida, crônica, banaliza o sofrimento.
Na verdade a opacidade é legado maldito da repetição. Quase tudo é trivial após repetido miríade de vezes, até o erro vira "normal", ainda mais se não há repressão moral, legal ou racional para ele.
Aqui por essas bandas a picaretagem recebeu o eufemismo hipócrita de malfeito.
Na verdade a opacidade é legado maldito da repetição. Quase tudo é trivial após repetido miríade de vezes, até o erro vira "normal", ainda mais se não há repressão moral, legal ou racional para ele.
Aqui por essas bandas a picaretagem recebeu o eufemismo hipócrita de malfeito.
Assim na política, assim nas relações humanas. Até a "mentira repetida mil vezes vira verdade". Disso sabia Goebbels e sabem bem os mensaleiros e seus advogados e ex-ministros da justiça.
Hoje qualquer descalabro ou cinismo caminham juntos, irmanados sob o pragmatismo corrompido do poder. "A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude", já dizia Francois de La Rochefoucauld ainda no Século XVII.
E eis que todos se acostumaram, tomando por normal o absurdo e por absurdo o normal, desde que o crédito seja mantido e o consumo permaneça em alta. Esse mesmo, o consumo, vilão nefasto dos teóricos esquerdopatas antes da estabilização econômica e da constatação de que o voto está mais para o dinheiro no bolso que para a melopéia sobre luta de classes.
O intelecto raso (um antigo professor da UFMG dizia que haviam os alunos acima da média, os abaixo da média e os que sempre estavam na média; esses, os "medíocres"), sempre manipulado por palavras-gatilho virou a pedra de toque da militância atual. Pra mim nada mais que reações acéfalas de torcidas organizadas, embora não tenha notícia de partidos políticos numa peleja no Mineirão.
(...)
Temos eleições de dois em dois anos no Brasil e eis portanto a inevitável invasão do lixo eleitoreiro em sua rotina, por mais que se corra dele. Pior, para ele não há alho, cruz de prata ou água benta que dê jeito.
A mim bastaria o seguinte: “se você agir sempre com dignidade, pode não melhorar o mundo, mas uma coisa é certa, haverá na Terra um canalha a menos” (Millôr).
_________________
J.F.K. "Se você agir sempre com dignidade, talvez não consiga mudar o mundo, mas será um canalha a menos".
Hoje qualquer descalabro ou cinismo caminham juntos, irmanados sob o pragmatismo corrompido do poder. "A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude", já dizia Francois de La Rochefoucauld ainda no Século XVII.
E eis que todos se acostumaram, tomando por normal o absurdo e por absurdo o normal, desde que o crédito seja mantido e o consumo permaneça em alta. Esse mesmo, o consumo, vilão nefasto dos teóricos esquerdopatas antes da estabilização econômica e da constatação de que o voto está mais para o dinheiro no bolso que para a melopéia sobre luta de classes.
O intelecto raso (um antigo professor da UFMG dizia que haviam os alunos acima da média, os abaixo da média e os que sempre estavam na média; esses, os "medíocres"), sempre manipulado por palavras-gatilho virou a pedra de toque da militância atual. Pra mim nada mais que reações acéfalas de torcidas organizadas, embora não tenha notícia de partidos políticos numa peleja no Mineirão.
(...)
Temos eleições de dois em dois anos no Brasil e eis portanto a inevitável invasão do lixo eleitoreiro em sua rotina, por mais que se corra dele. Pior, para ele não há alho, cruz de prata ou água benta que dê jeito.
A mim bastaria o seguinte: “se você agir sempre com dignidade, pode não melhorar o mundo, mas uma coisa é certa, haverá na Terra um canalha a menos” (Millôr).
_________________
J.F.K. "Se você agir sempre com dignidade, talvez não consiga mudar o mundo, mas será um canalha a menos".
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