sábado, 16 de junho de 2018

Exibicionismo, ostracismo e a lula



Confesso meu voyeurismo light no Face. É minha fraqueza inglória. Mas constato que não posso ser execrado sozinho nessa, já que mais traço herdado do DNA dos sapiens que de uma de minhas idiossincrasias. A saber.
(...)
Yuval Harari, no estupendo Homo Sapiens, pontua que a fofoca foi o amálgama inicial para a cooperação em grupos maiores. Num tempo em que a sobrevivência dependia majoritariamente da ajuda de outros do bando, seja para defesa ou proteção, alimentação e até cuidados quando ferido ou incapacitado, qualquer mecanismo social para fomentar tal intento seria importante. Afinal, quanto maior fosse o grupo, maiores seriam as chances de sobrevivência... e ai veio a santa fofoquinha para nos salvar. 
P.S. ainda bem que os chimpanzés, nossos primos, ainda não se deram conta dessa mamata, senão daqui a pouco isso aqui vira o planeta dos macacos.

(...)

Nos primórdios, tribos formadas por laços de maternidade ou amizade limitavam-se a algumas dúzias de membros. Hierarquia e a liderança de um macho alfa (feministas, não é culpa minha) no mais das vezes garantiam o alinhamento acima das discórdias que por ventura comprometessem a integridade e força do bando. Ou então surgia um novo macho alfa que por capaz de fazer mais coalizões e angariar mais adeptos voltava-se contra o líder e assumia o poder. Nada de novo, nem para o homo sapiens nem para os macacos e políticos, mesmo depois de milhares de anos. Nesse pormenor, continuamos intrinsecamente como nossos ancestrais... e primos. E vejam vocês, a política é bem mais símia que muitos de nós poderia imaginar.

Mas se por um lado só foi possível aumentar o número de membros do bando com o advento da fofoca, a primeira cola social que nos trouxe até aqui, estudos sociológicos apontaram que 150 fofoqueiros seria o ajuntamento máximo de traíras seduzidos pela vontade de meter a língua nos outros pelas costas. Depois desse limiar, o homo (gênero, feministas. Inclui a Dilma também, acho) teve que ser mais sofisticado...
Pausa: eu, como o Suassuna, acho mesmo que não é elegante falar do cabra pela frente. Melhor esperar ele dar as costas e ai meter a ripa. 
Voltando: “Depois desse limiar, o homo (tá... e a mulher também, senão a Dilma pira) teve que ser mais sofisticado”, inventar outros mecanismos que nos trouxeram até onde estamos hoje, realidades inventadas que nos puseram em cidades, países, reinos sob os auspícios de uma bandeira, Deus, rei, causa, pátria, e o raio que o parta, aos milhares, milhões, bilhões. Impressionante. Viramos os donos do planeta e ou dizimamos ou dominamos quem não engolisse nosso lifestyle. Mas isso é papo pra outro texto (ou leia Harari e descubra você mesmo).

(...)

Mas de volta ao Face frio, navego ali inconscientemente em busca de fofocas - falta do que fazer, preguiça ou incompetência, concordo -, sou um homem simples. É sempre alguém se mostrando numa cachoeira paradisíaca, num país no estrangeiro, num iate, carrão importado, com um mulherão ou famoso do lado, essas coisas. Me delicio com a bondade, inteligência, altruísmo, abnegação, sofisticação, alta cultura que todo mundo não tem, mas que ao contrário, faz questão de propagandear na rede. Como se todos fossem Francisco de Assis, Einstein, Madre Teresa de Calcutá, Bob Marley, Machado de Assis, o Batman... só tenho amigo foda! Deveria me orgulhar.
O duro dessa super exposição é que a compulsão, carência, idiotice ou sei lá mais de um único ególatra esculhamba tudo e estoura seu saco. Vira uma corrida pra ver quem é o campeão de posts do pedaço. E eu, aqui quieto no meu canto rastreando o feed, tenho que me deparar com o miserável uma, duas, dez, vinte vezes.... Só dá o fdp. 
Fico sabendo de tudo. Sei onde foi, onde vai, o que comeu, quem, o que finge que pensa, como finge que age, a merda toda. Quer sozinho toda minha atenção e é só o fidumaegua e sua enxurrada de bestage. Cara mais chato meu. Sai da minha roça.

Lembrei pois foi de meu xará grego, o Justo, que na votação de seu exílio numa assembleia popular em Atenas, interpelado por um eleitor para que escrevesse Aristides no óstraco indagou:
- Que mal te fez esse homem?
Do qual recebeu a resposta:
- Nem sequer o conheço, mas meus ouvidos já se cansam de ouvir chamarem-lhe de justo.

Pois é... o velho chato Caetano ainda reverbera bem quando disse numa música “ninguém de perto é normal”... nem perfeito.

Vá caçar algo melhor pra fazer sujeito... poupe meu ‘feed de fofocas’ de suas estripulias grandiosas. Dê uma chance ao resto. Leve pra lá suas fotos, pensamentos, poemas, lutas, o diabo. Quer ser o maioral, deixe sua obra falar. Quem precisa de demagogia, propaganda e culto repetitivo é ladrão de triplex e sítio, doutor honoris causa calça curta, salvador de pátria ou medíocre inato. Se quisesse eu ser catequizado por um fela desses, já teria ido à sua igreja, me filiado a seu partido, sindicato, movimento e feito o beija mão acertando o dízimo. Sai pra lá pô. 

Na falta de uma punição no Face como o ostracismo grego em Atenas, vou meter teu nome num óstraco e entregar na macumba... fidumarapariga. Se pra sair de seu ostracismo pessoal tem de badalar cada passo seu na minha timeline, você merece, nojento! 
Oh neguinho difícil... Tchan...

(...)

Ahhh... e o que a lula tem a ver com isso tudo? 
Nada... é que “meus ouvidos já se cansam de ouvir chamarem-lhe de inocente”.

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Desenho: Cinara Mota © copyright

sábado, 20 de janeiro de 2018

Dom Álvaro

Faleceu em Minas Novas Dom Álvaro. Era assim que Arnô chamava o parceiro de Regional.
De minha parte, considerava a alcunha simpática, já que relacionada à sua nobreza e não a algum cargo eclesiástico. 
Sim, nobre pelas qualidades e méritos, e até pelos defeitos.
(...)
Durante minha infância e juventude, era presença constante no Sobrado da rua São José. Ensaios em volta da mesa da sala no segundo andar, por entre um emaranhado de fios eram comuns. Estava além de minha ignorância juvenil, porém. Ele, Arnô, Tristão, Canuto, Dú, Heraldo, Plínio e por vezes alguns convidados ilustres (por exemplo, Dásio, Vagner) compunham aquele Regional que só vim a entender anos mais tarde, após vencer os arroubos da juventude e quebrar o ciclo da burrice hegemônica de minha geração. Um dia, num lampejo, vislumbrei o óbvio: original, apaixonante. Veio dai uma carta e a admiração mútua (o vi pela última vez em Janeiro de 2017, quando de férias em Minas Novas. Guardo com carinho um de seus livros com dedicatória e autógrafo).
(...)
É mesmo condição necessária algum estudo e maturidade, uma leitura mais sincera e elaborada da realidade, sem patrulhas, sem imbecilismo ideológico-cultural para enxergar além do mainstream. Especialmente num momento em que, como disse o Tom Martins (regente titular da OFSSP, compositor, instrumentista e bacharel em Composição e Regência pelo Instituto de Artes da Unesp), "... chegamos ao tempo em que se faz necessário provar às pessoas que a grama é verde e a água é molhada."
Depois o Tom continua o artigo dissecando o "grotesco alçado à condição de algo sacrossanto e imune às críticas, por justificativas ideológicas" que considero relevante o registro:
"Antes de embarcar na insólita investida de argumentar sobre os porquês de a música de Pabllo Vittar ser tão ruim – fato que deveria ser captado menos pelo intelecto do que pela própria experiência sensorial não racional –, serei obrigado a esclarecer dois pontos.
Primeiro, e mais importante: aqui nessas paragens, a discussão é adulta e civilizada. Qualquer acusação de “homofobia” ou correlatos será rechaçada com vigor, porque injusta com quem, como eu, cresceu ouvindo Freddie Mercury, Ney Matogrosso, Tchaikovsky, Bernstein, enfim, a lista é longa, e nunca o fato de serem homossexuais nem sequer ofuscou minha admiração e respeito a eles. O segundo aspecto é que, apesar de estudar música há mais de 30 anos, de ser regente profissional há 17, professor há 25 e de ter ajudado a fundar uma das maiores orquestras jovens do Brasil, a qual dirijo há 12 anos, falarei menos sobre música e seus aspectos técnicos do que sobre ideologia porque, afinal, é disso que o fenômeno se trata. O que vemos em Pabllo é o grotesco alçado à condição de algo sacrossanto e imune às críticas, por justificativas ideológicas."

Nesse momento, faço uma pausa e parafraseio o Tom me defendendo também antecipadamente: rechaço com vigor qualquer acusação de homofobia que por ventura algum incauto analfabeto funcional se incline a fazer. Arnô, o cantor do Regional é meu tio e homossexual. Até onde sei, isso NUNCA elevou nem diminuiu seu talento como cantor, que a rigor, NADA tem a ver com sua sexualidade. 
Disso sabia Álvaro muito antes da sapiência esquerdista ou burrice direitista inventar e explorar uma miríade de faróis politicamente corretos.

Mais que isso, trago também um trecho de um artigo do Fiuza chamado 'O mercado de causas sociais, sexuais e raciais virou uma praga, lucrativa nos balcões eleitorais': 
"O Brasil tinha 200 milhões de técnicos de futebol, mas eles mudaram de emprego. Agora são 200 milhões de fiscais ideológicos. Todos prontos para dar carteiradas solenes a cada esquina do espectro esquerda x direita – ou seja, no mundo da lua."  
(...)
Dom Álvaro foi também assim com seus comentários rascantes, num tempo em que o politicamente correto ainda não havia chegado ao estágio de imperativo categórico, como hoje. Mas suficiente para vesti-lo com a toga de radical, excêntrico, dentre outros rótulos odiosos cunhados para nivelar por baixo, igualar, tornar comum quem comunal não era. Era sincero. Bastava pra ser excomungado no senso comum das ovelhas atrás de pastor e pasto. Já tivéramos Cartola, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, tantos outros, ele sabia. Nada havia de rasteiro nos versos do Cartola, Noel, na música do Pixinga, na emoção boêmia do Nelson. Coisa boa é coisa boa, lixo é lixo, na favela ou na zona sul.
Gostava era de música boa, sem rótulo. E boa é boa e ruim é ruim, como preto é preto e branco é branco. Alma não tem cor porra!, ainda que a ciência questione a existência da alma, ou talvez por isso mesmo.
Dai ser um dos maiores da festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Minas Novas. Era branco. Mas fé não tem cor porra! 
Sincero. Irredutível em suas crenças. Raridade hoje em dia.

Vivemos a era das amálgamas. Todos iguais, medíocres, tutelados por um grande irmão virtual, estúpido e sempre mal intencionado, embora invariavelmente travestido de boa causa prometendo a salvação do homem.
(...)
Foi-se com ele a originalidade, a polêmica, o bom gosto, um tanto da cultura da cidade.
A ele minha reverência sincera: madeira de lei, melhor, cabra bão!!! 
Que Deus o tenha Dom Álvaro, anjo da velha guarda.
Um dia nos vemos... quem sabe.

Álvaro Freire (Foto: Marina Pereira/G1) - Historiador, músico de Minas Novas ...
LINK : Regional


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Tranquill Buzz Coffee



Num voo de El Paso a Houston, depois de visitar meu filho em Silver City, observo a cidade sob os holofotes da lua cheia a trinta mil pés de altura de meu lugar na arquibancada do avião.

El Paso pareceu-me mais bela dessa vez. As montanhas no entorno da cidade lembrando-me a serra do Curral, só que ao invés de Belo Horizonte, ELP deitada no vale.

ELP é o acrônimo do aeroporto da cidade, e, nem tão coincidentemente assim, o nome da minha banda preferida de progressivo da década de 1970.

(...)

Keith Emerson matou-se em 2016, com um tiro na cabeça. Tinha setenta e um e não mais a destreza e virtuose que fizeram dele uma lenda. Tal infortúnio, talvez relacionado à sequela de um acidente de moto e à idade, tiraram dele a alegria deixando porém a alma de músico. Essa incompatibilidade levou-o à depressão, ainda que permanecesse para sempre o ‘E’ do ELP - Emerson, Lake and Palmer. Mas não interessa mais, Keith se foi. Não gosto mesmo de imaginar o motivo. Nem sei se algum motivo justificaria tal viagem, e nem quero saber.

Talvez Torquato já soubesse. Porém calado há tempos, veio nos contar somente depois de Edu musicar ‘Pra dizer adeus’, quando já era tarde...

(...)

Zeca e eu estivemos em um café em Silver City hoje à tarde. Como em Venice Beach, na Califórnia, a cidade também um reduto de hippies cabeludos sexagenários. Mas diferentemente da praia da costa oeste, velhos zen enfronhados em livros, música, natureza, artesanato, vida simples e alguma marijuana. Assim é o Tranquil Buzz Coffee House, onde lendo-se stressed ao contrário pede-se na verdade uma das deliciosas opções de desserts da casa.

Em Los Angeles, tudo visível demais, estereotipado demais, ripongas pra turista ver na beira do mar da Califórnia (“garota eu vou pra Califórnia...”).
Se Silver City é raiz, Venice Beach hoje é Nutella premium. Seria como comparar BH e o jazz e progressivo rural do Clube com o axé asfixiante da Bahia, a despeito do passado com The Doors e a geração Beat (1950 e 1960). Foi-se.

Ai me lembro de um ex-namorado de uma amiga (Fernando?) que durante um carnaval em Salvador, de abadá e o diabo, estancou subitamente no meio daquela torrente e perguntou-se:
 - que diabos estou fazendo aqui?
Lembrou-se pois foi de Zé Henrique cantando de cima de um caminhão improvisado “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu...”, de nós descendo a Marechal atrás do Trio em direção ao largo do Sobrado de Mário em Minas Novas... e consumido foi pela saudade.

(...)

Pensei no velho hoje de novo. Deixei seu neto outra vez mas sei que não sozinho. Os anos se passam e as comparações são inevitáveis. Reminiscências, memórias feito um caleidoscópio de lembranças, momentos.
E a lua cheia lá fora da janela “como um sonrisal num copo”, diria Inô (ex-comunista, como a China) numa daquelas férias no Vale que impossíveis de esquecer.

Envelhecer é perigoso...

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Mustangs


Meu pai se foi em 2012. Não me agrada lembrar a data, rever a dor. 

Meu filho recebeu seu nome... antes, muito antes de um câncer intrujão tirá-lo de nós. 
Lembro-me que primeiramente queria Francisco, Chico Chicão, como na Gabriela de Walter Durst. Porém topei com a oposição maciça da família e da mãe, da qual não poderia mesmo me esquivar. Dai veio a cartada derradeira, chamar-se-ia ZéMota, como o avô. A mãe rendeu-se de imediato, sem resistência, nem mesmo escondeu a satisfação. Afinal, tinha jogado pesado, um xeque-mate de mestre.

Lembro também de como contei ao velho. Chegando da rua, entrou pela porta da cozinha e perguntei:
- Sabe qual será o nome do seu neto?
- Qual?
- O seu.
Driblou-nos emocionado e dirigiu-se ao quarto onde provavelmente ninguém o veria chorar.

(...)

Logo depois que nasceu deixou-nos no hospital e incumbiu-se compulsoriamente de registrá-lo no cartório. Pegou o laudo médico e voltou com a certidão de nascimento onde seu nome constava duas vezes: ZéMota Neto registrado por ZéMota.

(...)

É 2017. Um novo Agosto. Estamos em Silver City, Novo México. Outro dia 6, uma Segunda-Feira, cinco anos depois. 
Há cinco anos meu pai se foi. 

Agora começa o primeiro dia do resto da vida de meu filho. Encontramos o técnico, nos extasiamos com o campus, com a hospitalidade. Quase tudo acertado em um único dia. 
O Velho estava lá. 

Dois dias depois, surpreendentemente adaptado, sentiu-se em casa. Uma casa longe de Minas, mas que com Minas se parece. O dormitório da Universidade, as montanhas, o povo, a cidade de dez mil habitantes, Silver City. Poderia ter sido Ouro Preto, Diamantina, Minas Novas, é tudo mina.

(...)

O coach torce para o Galo, num país onde football joga-se com as mãos. Um mexicano-americano torcedor do Atlético Mineiro. 
O Velho estava lá de novo.
Estava comigo no caminho de volta ao aeroporto em El Paso quando olhando para as nuvens num dia ensolarado antes de Bayard, a 55 milhas por hora, disse a ele que nosso menino crescera. 
Revi seus passos, do Jequitinhonha a BH. Revi os meus, de BH a Curitiba. Pensei nos dele, BH, Curitiba, Silver City no Novo México, o mundo. Culpa do Velho. Foi em 2012 para nunca mais sair de nós. 

Deixei seu neto para trás. 
Não chorei nem entristeci, só uma ponta de saudade. Afinal, o Velho estava lá... estaria por ele, por nós, sempre!, já não pairava mais nenhuma dúvida!

domingo, 4 de dezembro de 2016

Vapor

No banho - quente, não importando o calor da estação -, cabeça baixa, braços cruzados, subjugado pelo açoite da água escorrendo pelos cabelos e corpo, perdia-se na correnteza louca daquele rio artificial.
Ocorria-lhe ainda a pergunta tola de qual curso d'água tivera sido profanado para que a torrente que outrora dera forma a um leito viesse parar ali, cuspida em múltiplos fios sob o rigor da ducha sobre sua cabeça. Outros lampejos insistiam em trespassar sua mente virgem, mas lavados pela água, também desapareciam pelos inúmeros furos daquele buraco cromado sob seus pés.
Ao levantar os olhos, acuado pelas brumas daquele Avalon, a folha retangular do blindex surgia como um quadro mágico a possuir seus pensamentos. Escrevia parágrafos de cima a baixo, Kerouac de chuveiro, até que terminasse a página ou o topo já estivesse coberto novamente pela maré da água em condensação.
Em seu prazer asséptico, não tinha certeza de quanto escrevera. Pelas lembranças das histórias, ainda que esparsas, calculava terem sido muitas. Perdia-se hora, hora e meia na route 66 daquela suíte até que algum o tirasse do transe com uma verdade mundana feito a conta da água, da luz, ou lhe causasse enjoo com um clichê politicamente correto vindo as vezes na voz estridente do filho mais novo a vociferar verdades irrefutáveis do alto de seus 16 anos de hegemonia cultural do ensino médio. Sentia-se injustiçado, um Dante Alighieri interrompido na concepção do Sétimo Círculo e do Vale do Flegetonte, sem Beatriz nem Virgílio para nortear seus passos.

Como tantos, porém, a glória efêmera durava o tempo do fog do banho. Trazido de volta, fechava o rio e apertava a toalha contra o rosto e olhos num último suspiro antes do despertar da rotina.
Pronto. Estava de volta. A roupa do escritório, o perfume caro do duty free comprado antes pelos auspícios da vendedora que pelo olfato fugidio oriundo de uma sinusite recorrente na juventude transformavam-no em seu pior pesadelo. Detestava ser só ele mesmo, diariamente. E aos poucos as loucas histórias de seus livros de blindex sucumbiriam à massante realidade dos afazeres diários, o trabalho, a vida moderna.
Caminhava até o escritório na intenção última de retardar o reencontro com a realidade. 35, 40 minutos de passos cruzando gentes e ruas ainda como o Mitty de si mesmo, mergulhado em seu multiverso ainda livre para ser o que quiser, estar em qualquer lugar, até que a fachada do prédio do escritório ou as gotas do suor oriundas do verão e caminhada escorressem pela fronte e o arrancassem do coma ao final da jornada.

No mais, um pouco mais do mesmo. Vida opaca pelo badalar da prisão da qual não soubera fugir tornando-se assim apenas um a mais, como tantos, iguais, irrelevantes. E embora não carregasse mais a utopia pueril de mudar o mundo, menos ainda a sandice marxista das ideologias, sabia da verdade e aceitava-a, mesmo que através das histórias e seus livros de blindex.

E amanhã com certeza, um outro dia, uma outra história. Sim, era apenas ele mesmo, um homem simples, nem mais, nem menos.

Todos, tantos, também o eram, em todo lugar, todo o tempo. Mas estava só, `a deriva.



terça-feira, 14 de junho de 2016

Efeito Borboleta

Causa e efeito sempre foram tara científica. Em ciência, causalidade é mantra comum embasado por modelos matemáticos que vão da Indução à Teoria do Caos. A certeza de que derrubado um dominó os colocados a sua frente cairão em sequência é senso comum. Dai para o Efeito Borboleta de Lorenz em seu Deterministic Nonperiodic Flow,  nada mais que algumas centenas de anos. No Universo Imperfeito, pontuaria Marcelo Gleiser, a sopa prebiótica que nos trouxe até aqui teria sido consequência da conjunção (quase) aleatória e raríssima de um sem-número de condições que culminariam no aparecimento do primeiro ser unicelular. Somos a singularidade, portanto, o atrator perdido na vastidão solitária do universo em meio ao caos.
(...)
Sociólogos, cientistas políticos, advogados progressistas - todos adeptos do ofício criativo - só usam e abusam da causalidade, no entanto, caso útil a seus intentos ideológicos. Não se trata de um imperativo científico, pelo contrário, mero estratagema erístico no intuito de burlar a verdade prestando à mentira um pseudo rigor. A lógica, outra espinha dorsal do método, também estuprada coletivamente todas as vezes que algum descalabro necessita de explicação retórica. O "não sabia de nada", "só uma consequência da falta de oportunidade", "culpa do sistema" e tantas outras excrecências que procriam no discurso picareta da defesa dos indefensáveis, pululam na imprensa oficiosa desses dias como uma infestação de baratas. A última, a mais recente pedra de toque para o embate jurídico em direção ao perdão de organizações, crimes e criminosos. É como se na bacia das almas, tirando nós, expectadores atônitos, os atores do picadeiro desempenhassem seus papéis desplugados da responsabilidade pelo roteiro macabro da farsa, e pior, não dando a mínima para quem pagou o ingresso. E a massa de manobra, cuja extensão cultural limita-se às redes sociais e protestos a favor, a repetir como papagaios de pirata os jargões cunhados pelos marqueteiros ou think tanks sem nem mesmo um mínimo de pudor na apuração dos fatos. Loas ao feio como se bonito fosse ecoam do meio do teatro para surpresa dos incautos. Palavras-gatilho e o rosário de verdades superficiais que desfiam como justificativas autoevidentes além de apócrifos e toda sorte de lixo circulam na net avalizando a matemática do efeito dominó. Todos também atores de um espetáculo patético onde qualquer tentativa de debate torna-se-ia inútil. É como rezar as Catilinárias de Cicero para os pombos na praça. 
(...)
Sem esperança à vista, cabisbaixo, acompanhado por um niilismo que leva meus olhos de volta ao passado a minha frente, leio alguns capítulos do Homem Medíocre de Ingenieros, ouço Tales of Topographic Oceans do Yes ou Tarkus do ELP, revejo Matrix e enterro-me novamente em meu silêncio, embora andasse com saudade de rascunhar umas linhas. 
Tomara não dure mais oito meses... 

domingo, 4 de outubro de 2015

2 em 1 ou: Maus Presságios

Arthur Schopenhauer conquistou um lugar entre os clássicos com O Mundo Como Vontade e Representação. Não li. Sou apenas mais um fool on the hill, confesso. Mas isso não significa que ao tomar conhecimento de alguns de seus escritos não vislumbre de imediato sua genialidade e fino estilo. Gabo-me de ter um gosto bem definido. Ao menos isso, nesses tempos de atividade intelectual circunscrita ao Face, "essa caixa de gordura da humanidade", como diria o Fred Melo, grande atleticano e cronista (coincidência quase mandatória).
Por exemplo, gosto do Russel e duvido do Rousseau, simpatizo com o Judt e desconfio do Hobsbawn. Acho Maquiavel e Gramsci uma droga, e se leio Benito Barreto também leio Graham Greene. Gosto muito dos Beatles e detesto o Scorpions, adoro Led Zeppelin e abomino Bon Jovi, e não sou nem mesmo um ouvinte acidental de sertanejo, axé ou pagode. Detesto mesmo, assim, feito criança mimada. Por outro lado, a harmonia do Toninho continua a me surpreender 35 anos depois de ouvir Viver de Amor pela primeira vez.

Pois é, após essa curta digressão falo do estratagema da homonímia sutil, da Dialética Erística de Schopenhauer: usar a homonímia para tornar a afirmação apresentada extensiva também àquilo que, fora a identidade do nome, pouco ou nada tem em comum com a coisa que se trata é either picaretagem ou burrice. Talvez ambos.
Eis então que agora alguns definem a camisa da seleção brasileira como símbolo exclusivo da corrupção na CBF. Bem, sob tal princípio, a bandeira nacional de 1889 deve ainda ser considerada um símbolo viciado do Império, já que o campo verde e o losango representavam a Casa de Bragança de Pedro I e a Casa de Habsburgo de sua esposa, a imperatriz Maria Leopoldina, respectivamente. E na verdade, a camisa de todo e qualquer time estaria irremediavelmente associada ao cartola picareta da agremiação e você, torcedor apaixonado, apenas um trouxa ao ostentar as estrelas brancas no fundo azul. Afinal, olha o helicóptero da cocaína ai perrelada. Logicazinha infantil... Portanto não se atreva a usar tal símbolo, coxinha.
Mas isso não importa. Ao defender loucamente um projeto carcomido de poder laqueado pelas utopias fracassadas do século passado, mesmo depois de todas as evidências e milhões, heróis do povo brasileiro, provas, prisões, aumentos, recessão, inflação, presumo que ainda não chegaram ao ápice de seu peleguismo.
As rotinas defensivas deflagradas após a eleição pela dificuldade em assumir o erro depois do estelionato parecem triviais agora. Tentaram ridicularizar os panelaços, já que proprietários de todas as boas causas, mas sucumbiram humilhantemente aos protestos a favor, essa modalidade de manifestação que além do DNA do fascismo denota o fisiologismo dos aparelhos ideológicos conectados às tetas do capilé estatal. Para coroar o nefasto apoio a esse novo patrimonialismo partidário inventado pela lula, usam como argumento de autoridade as pérolas de intelectuais da envergadura de um Duvivier. Mas já que ainda não chegaram ao fundo do poço, continuam atrás de sua master piece. Mas espere, pode ser que tenham conseguido: divulgaram um manifesto dos (outros) intelectuais do partido e acabaram de inventar o "hermafroditismo" ideológico, masculino feminino, situação oposição.
Nunca antes...
Continuam situação nas benesses e nas boquinhas. Oposição só no embuste, na farsa e acintosa agressão à lógica. O tal manifesto dos intelectuais do PT é a materialização dessa outrora impossibilidade fática. Atribuem a crise à invenção gananciosa dos donos do capital - como esses da Odebretch pra quem squid trabalha - e a tal solução para o fantasioso imbróglio econômico a bodes expiatórios. Da mandatária tiram qualquer traço de autonomia, como se isso, por si só, já não impugnasse sua atuação.
Faz sentido. A figura não tem mesmo capacidade para decidir coisa nenhuma e talvez esse tenha sido o único acerto da turma a favor.
(...)
Em Maus Presságios, Günter Grass através de seus personagens Alexander Reschke e Alexandra Piatkowska talvez tente expurgar um pouco de seu sentimento de culpa ao escrever:
"Não era necessário remexer no passado, porque as poucas aventuras à margem traziam lembranças inexatas ou mal ordenadas. E o fato de que ele, aos quatorze anos e meio, tivesse sido soldado e ela, aos dezessete, membro entusiasta da organização das juventudes comunistas era perdoado aos dois, mutuamente, como defeitos congênitos de sua geração; não era preciso descer a nenhum abismo; até porque ele, nos momentos em que duvidava de si próprio, dizia que tinha de lutar continuamente contra o jovem hitlerista que tinha dentro de si…"

Aos inocentes úteis de hoje também é dada tal chance. Afinal, todos erramos. Mas é imperativo rever e assumir o erro como sinal definitivo de crescimento. A realidade não nos permite ser o garoto  do Tambor (também de Grass) e deixar de crescer. A vida não é um romance.
(...)
Mas caso insistam, um alerta:
Alexander e Alexandra do romance de Grass criaram a sociedade Polono-Germano-Lituana de cemitérios como garantia aos alemães expulsos da Polônia e poloneses expulsos da Lituânia o direito de regresso à pátria mesmo que para seu último descanso, a morte (as cidades de Wilno, na Lituânia, e Dantzig, na Polônia oscilaram durante todo o século XX entre Alemanha, Letônia e Lituânia devido a disputas territoriais e guerras). Com o tempo, o que de início era uma ideia humanizadora passa a ser um investimento comercial. Os lucros que o cemitério poderia promover importava mais aos sócios que o descanso que pessoas sofridas poderiam ter, ainda que simbólico.
Alexander e Alexandra então deixam a sociedade. 
Durante uma viagem de carro à Itália, os dois sofrem um acidente de carro e morrem. 

Uma ironia: ambos são enterrados como indigentes em solo estrangeiro. Depois de tudo.