segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Pierrot ou Arlequim?

Sentir-se estúpido às vezes parece não ser exclusividade minha. Pressinto que todos tenham tal sensação vez ou outra, seja por cometer erros crassos, passar da conta no álcool - se transformando no palhaço da festa - ou apenas por se apaixonar pela pessoa errada.

Por essas e tantas outras razões, estamos sempre nos blindando de alguma forma, criando uma armadura forjada em uma espécie de personagem de nós mesmos. Tal personagem deveria ser uma versão mais “impermeável” do que somos, realmente.

O problema é que por vezes alguns levam isso tão a sério e por tanto tempo que acabam por assimilar uma ou várias características de seu personagem. Tornam-se escravos de seu próprio script, e a partir daí, passam a ser uma pantomima de si mesmos. Deixam de dirigir o espetáculo para se transmutar no Arlequim da própria peça, subtraídos de sensações, convívios, experiências, tudo em nome de uma característica imputada ao personagem, criada um dia para salvaguardar a própria identidade. Se alheios às mudanças ao redor esquecem de revalidá-la, retirando-a ou alterando-a se não mais necessária ou efetiva, sucubem a uma prática que pode cristalizar e passar a manipular o autor.

A inflexibilidade virá de tal “verdade pessoal absoluta” e, provavelmente, tornar-se-ão atores avessos a argumentos, lógica, raciocínio.
Intolerantes, refutarão dogmaticamente tudo e todos que se opuserem a seu novo axioma existencial.

Eu cá digo que se é pra me transformar em uma pantomima de mim mesmo, que seja emulando algumas das características de Einstein, Toninho Horta, Tony Judt, Russell, ou tantos outros. Virar o Pierrot de minha própria vida me privando de um sem número de experiências só porque “eu sou assim...” ou “eu sou assado...” não me tornarão maior ou menor do que sou agora. Os enigmas do universo continuarão por lá, impassíveis às minhas mais angustiantes questões existenciais.

Por isso, cuidado.
A menos que você viva num microcosmo limitado por um reduzido e compulsório número de habitantes, sua commedia dell’arte pode não ter graça alguma.

Pior que isso, pode não aparecer ninguém para ver seu espetáculo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário